O "MALANDRO HISTÓRICO"

 

Alcides

 

Integrante da primeira geração de grandes compositores da Portela, Alcides Dias Lopes, carinhosamente conhecido como "malandro histórico", é sempre lembrado pelos antigos portelenses, que aprenderam um pouco da arte de compor verdadeiras preciosidades musicais. Nascido em 17 de dezembro de 1909, Alcides deixou seu nome gravado na história da Portela, escola que viu nascer, crescer e se tornar vitoriosa.


Alcides, o "malandro"

Quando a Portela estava se formando, Alcides levava uma típica vida de "malandro". Vagava pelo mundo, sem ocupação fixa, apenas curtindo as delícias que a juventude proporcionava.

Os tempos de "malandragem" jamais seriam esquecidos pelos amigos, perpetuando-o como o maior dos "malandros portelenses". Era assim que as novas gerações o conheciam. Era assim que as novas gerações o admiravam.


Alcides, o "histórico"

A memória de Alcides sempre impressionou a todos. Lembrava, com absoluta certeza, sambas antigos que fizeram a história do carnaval e os primeiros desfiles que tinha presenciado, ainda na antiga Praça XI. Alcides era sempre lembrado para elucidar qualquer dúvida referente ao passado da Portela, sendo conhecido pelos amigos como "histórico".


Alcides "malandro histórico"

Surgia, assim, a alcunha que iria tornar Alcides famoso: o "malandro histórico", lembrança dos primeiros anos de malandragem e de sua grande memória para guardar fatos históricos. Alcides, o "malandro histórico", narrador de belas histórias, seria perpetuado através das gerações com suas poesias gravadas por consagrados cantores da música brasileira.


Alcides, o chefe de família

Mas os tempos de malandragem não durariam muito. Alcides casou-se com Guiomar, baiana da Portela, com quem teve 4 filhos. Arrumou emprego fixo, como manobreiro da Central do Brasil, e se tornou um verdadeiro chefe de família. No refrão de "Vivo Isolado do Mundo", sua música de maior sucesso, Alcides conta um pouco da transformação que Guiomar trouxe para sua vida:

"Eu vivia
Isolado no mundo
Quando eu era vagabundo
Sem o teu amor
Hoje em dia
Eu me regenerei
Sou um chefe de família
Da mulher que amei"


Alcides, o portelense histórico

Alcides é considerado um dos fundadores da Portela. Era, ao lado de nomes como Paulo da Portela e João da Gente, mestre-de-canto dos primeiros desfiles da escola, responsável pelo improviso, ou seja, a resposta na segunda parte dos sambas. É de sua autoria um dos sambas cantados pela Portela no seu primeiro desfile, "Ando Penando", incluído no primeiro LP gravado pela Velha Guarda da Portela, em 1970. Seu sentimento pela Portela, terra de gente humilde, pobre, mas dotada de uma riqueza musical ímpar, ficou marcado na primeira parte de "Vivo Isolado do Mundo":

"Se tu fores na Portela,
Gente humilde, gente pobre
Que traz o samba nas veias
Um samba de gente nobre"


Alcides, o malandro da velha guarda

Tendo participado da gravação do primeiro LP gravado pela Velha Guarda, Alcides não chegou a participar da rotina de shows que aquela iniciativa proporcionaria ao grupo. Contudo, seu samba "Você não é a tal, mulher" foi incluído na segunda gravação do conjunto, em 1986. "Vivo isolado do mundo", popularizado na voz de Zeca Pagodinho, é obrigatório em qualquer show da velha guarda.

Entre suas obras, destacam-se ainda "Abra as vistas, rapaz", "Já sei de tudo, mulher" e "Pelo amor de Deus, mulher". Em parceria com o amigo Monarco, deixou poesias musicadas como "Carinho", "Você pensa que eu agora me apaixonei", "Se conforme com o desprezo" e "Se eu soubesse vem depois". E com Jair do Cavaquinho compôs "Vem, oh linda!".


O sucesso tardio

O "malandro histórico" faleceu em 9 de Novembro de 1987. Em vida, jamais Alcides imaginaria que uma música sua fizesse tanto sucesso na virada do século. É uma pena que o "malandro portelense" não esteja vivo para presenciar a multidão de jovens que hoje lota os shows da Velha Guarda e pede sua música.

Alcides não viveu para ver como Zeca Pagodinho projetaria sua obra, com importantes casas de shows de todo o Brasil cantando, em uníssono, os versos que foram criados sem muita pretensão, possivelmente no recanto de seu lar, ou em qualquer mesa de bar ou botequim. O que Alcides acharia desse sucesso?


Legados para as gerações futuras

A Portela sempre foi um manancial de poesias musicais. Grande parte da vasta obra dos compositores portelenses permanece inédita, aguardando alguma iniciativa que a transforme em sucesso. A recente valorização da velha guarda é uma esperança, esperança de que novos projetos surjam e possam eternizar toda a produção dos grandes compositores de Oswaldo Cruz.

As riquezas musicais de Oswaldo Cruz possuem características únicas. Grande parte dessas raridades sobrevive em papéis amarelados pelo tempo, resiste na memória de seus autores e é compartilhada por todo o grupo através de animadas rodas de samba, numa transmissão de cultura tipicamente oral. Quem sabe, num futuro não tão distante, alguma outra preciosidade de Alcides possa ser resgatada?

Quem sabe os jovens de amanhã possam desfrutar de alguma música hoje desconhecida de Alcides?

Quem sabe uma nova música de Alcides possa estourar novamente nas rádios?

Quem sabe não poderemos chamar o grande portelense de Alcides, o "Malandro Eterno"?
 


Bibliografia:
CANDEIA FILHO, Antônio & ARAÚJO, Isnard. Escola de samba - árvore que esqueceu a raiz. Rio de Janeiro, Ed. Lidador, 1978.
VARGENS, João Baptista M & MONTE, Carlos. A Velha-Guarda da Portela, Rio de Janeiro, Manati, 2001.
 
 

 

Integrante da primeira geração de grandes compositores da Portela, Alcides Dias Lopes, carinhosamente conhecido como "malandro histórico", é sempre lembrado pelos antigos portelenses, que aprenderam um pouco da arte de compor verdadeiras preciosidades musicais. Nascido em 17 de dezembro de 1909, Alcides deixou seu nome gravado na história da Portela, escola que viu nascer, crescer e se tornar vitoriosa.

 

Alcides, o "malandro"

 

Quando a Portela estava se formando, Alcides levava uma típica vida de "malandro". Vagava pelo mundo, sem ocupação fixa, apenas curtindo as delícias que a juventude proporcionava.

 

Os tempos de "malandragem" jamais seriam esquecidos pelos amigos, perpetuando-o como o maior dos "malandros portelenses". Era assim que as novas gerações o conheciam. Era assim que as novas gerações o admiravam.

 

Alcides, o "histórico"

 

A memória de Alcides sempre impressionou a todos. Lembrava, com absoluta certeza, sambas antigos que fizeram a história do carnaval e os primeiros desfiles que tinha presenciado, ainda na antiga Praça XI. Alcides era sempre lembrado para elucidar qualquer dúvida referente ao passado da Portela, sendo conhecido pelos amigos como "histórico".

 

Alcides "malandro histórico"

 

Surgia, assim, a alcunha que iria tornar Alcides famoso: o "malandro histórico", lembrança dos primeiros anos de malandragem e de sua grande memória para guardar fatos históricos. Alcides, o "malandro histórico", narrador de belas histórias, seria perpetuado através das gerações com suas poesias gravadas por consagrados cantores da música brasileira.

 

Alcides, o chefe de família

 

Mas os tempos de malandragem não durariam muito. Alcides casou-se com Guiomar, baiana da Portela, com quem teve 4 filhos. Arrumou emprego fixo, como manobreiro da Central do Brasil, e se tornou um verdadeiro chefe de família. No refrão de "Vivo Isolado do Mundo", sua música de maior sucesso, Alcides conta um pouco da transformação que Guiomar trouxe para sua vida:

 

"Eu vivia

Isolado no mundo

Quando eu era vagabundo

Sem o teu amor

Hoje em dia

Eu me regenerei

Sou um chefe de família

Da mulher que amei"

 

Alcides, o portelense histórico

 

Alcides é considerado um dos fundadores da Portela. Era, ao lado de nomes como Paulo da Portela e João da Gente, mestre-de-canto dos primeiros desfiles da escola, responsável pelo improviso, ou seja, a resposta na segunda parte dos sambas. É de sua autoria um dos sambas cantados pela Portela no seu primeiro desfile, "Ando Penando", incluído no primeiro LP gravado pela Velha Guarda da Portela, em 1970. Seu sentimento pela Portela, terra de gente humilde, pobre, mas dotada de uma riqueza musical ímpar, ficou marcado na primeira parte de "Vivo Isolado do Mundo":

 

"Se tu fores na Portela,

Gente humilde, gente pobre

Que traz o samba nas veias

Um samba de gente nobre"

 

Alcides, o malandro da velha guarda

 

Tendo participado da gravação do primeiro LP gravado pela Velha Guarda, Alcides não chegou a participar da rotina de shows que aquela iniciativa proporcionaria ao grupo. Contudo, seu samba "Você não é a tal, mulher" foi incluído na segunda gravação do conjunto, em 1986. "Vivo isolado do mundo", popularizado na voz de Zeca Pagodinho, é obrigatório em qualquer show da velha guarda.

 

Entre suas obras, destacam-se ainda "Abra as vistas, rapaz", "Já sei de tudo, mulher" e "Pelo amor de Deus, mulher". Em parceria com o amigo Monarco, deixou poesias musicadas como "Carinho", "Você pensa que eu agora me apaixonei", "Se conforme com o desprezo" e "Se eu soubesse vem depois". E com Jair do Cavaquinho compôs "Vem, oh linda!".

 

O sucesso tardio

 

O "malandro histórico" faleceu em 9 de Novembro de 1987. Em vida, jamais Alcides imaginaria que uma música sua fizesse tanto sucesso na virada do século. É uma pena que o "malandro portelense" não esteja vivo para presenciar a multidão de jovens que hoje lota os shows da Velha Guarda e pede sua música.

 

Alcides não viveu para ver como Zeca Pagodinho projetaria sua obra, com importantes casas de shows de todo o Brasil cantando, em uníssono, os versos que foram criados sem muita pretensão, possivelmente no recanto de seu lar, ou em qualquer mesa de bar ou botequim. O que Alcides acharia desse sucesso?

 

 

 

Legados para as gerações futuras

 

A Portela sempre foi um manancial de poesias musicais. Grande parte da vasta obra dos compositores portelenses permanece inédita, aguardando alguma iniciativa que a transforme em sucesso. A recente valorização da velha guarda é uma esperança, esperança de que novos projetos surjam e possam eternizar toda a produção dos grandes compositores de Oswaldo Cruz.

 

As riquezas musicais de Oswaldo Cruz possuem características únicas. Grande parte dessas raridades sobrevive em papéis amarelados pelo tempo, resiste na memória de seus autores e é compartilhada por todo o grupo através de animadas rodas de samba, numa transmissão de cultura tipicamente oral. Quem sabe, num futuro não tão distante, alguma outra preciosidade de Alcides possa ser resgatada?

 

Quem sabe os jovens de amanhã possam desfrutar de alguma música hoje desconhecida de Alcides?

 

Quem sabe uma nova música de Alcides possa estourar novamente nas rádios?

 

Quem sabe não poderemos chamar o grande portelense de Alcides, o "Malandro Eterno"?

 

Bibliografia:

CANDEIA FILHO, Antônio & ARAÚJO, Isnard. Escola de samba - árvore que esqueceu a raiz. Rio de Janeiro, Ed. Lidador, 1978.

 

VARGENS, joão Baptista M & MONTE, Carlos. A Velha-Guarda da Portela, Rio de Janeiro, Manati, 2001.