Lendas da Portela

 

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Eram duas meninas.

A vida as juntou um dia; separou-as depois para reaproximá-las agora.

Quem poderá saber o quanto valeu tudo e tanta coisa depois de tanta vida ter passado?

Cada lembrança, cada gesto? Cada um daqueles momentos - e foram tantos! Como saber isto quando ambas relembram cada pedaço da vida tanto tempo depois?

Muito mais quando a vida valeu tanto à pena

Era uma vez... Em um dia qualquer de um distante fevereiro de 1918, aqui em nossa cidade nascia a menina Doralice..

Próximo aquele dia, dois ou três anos depois, em uma cidade próxima nascia a outra menina: Maria das Dores.

Mais ou menos por esta época um jovem nascido duas décadas antes, em local bem próximo ao de Doralice, sem nunca tê-la conhecido antes, perambulava altivo e curioso pelas ruas do centro da cidade observando todo o desenrolar de tantas mudanças.

Tempos de grandes transformações.

Olhava para um lado, via a "Paris dos Trópicos". Para outro a "Pequena África".

Que seria dessas três vidas, que desígnios as fariam convergir para as ruas distantes de Oswaldo Cruz e Madureira?

Esse tal jovem "subiu" antes. É época do nascimento das meninas, dois ou três anos depois, já estaria "aprontando" em Oswaldo Cruz fundando o bloco Baianinhas, semente da escola que seria sua própria vida. Ele e mais Rufino e Caetano.

Tempos depois - aos quatro anos - Doralice, que já não morava no Morro do Pinto, tem sua mãe acidentada e a família vai morar em Oswaldo Cruz deixando para atrás a rua da América, próxima à Central do Brasil.

Quem já passou por isso sabe que poucas coisas na vida marcam mais a mente de uma criança do que uma casa nova. Nova rua, novos vizinhos, novos mistérios.

Morava agora em uma das casas da chácara conhecida como Fazenda Theófilo, na esquina da Estrada do Portela com Rua Joaquim Teixeira, em cuja casa principal viria depois morar, vinda de Queluz, no vale do Paraíba paulista, a lendária família Nascimento: seu Napoleão, o pai, o inesquecível Natal, Vicentina e Nozinho.

Logo, logo, em 1923, assistiria o encontro, o namoro e depois o casamento de sua tia Diva com o jovem Caetano, desenhista da imprensa naval apaixonado por carnaval, morador de Quintino mas que, por razões óbvias, não saia de Oswaldo Cruz. Seria o artista principal e o "cérebro" da formação da futura Portela.

Era uma área grande, de árvores frondosas, onde se destacava uma enorme e mítica mangueira que está lá até hoje. Até quando estará?

Sob aquela mangueira brincaria de boneca, "brigaria" muito com Vicentina e travaria uma parceria com Nozinho repleta de traquinagens e peripécias de infância e adolescência..

Viu ali sua escola querida ser fundada por aquele mesmo jovem a quem nunca houvera conhecido; aquele mesmo que perambulava altivo e curioso pelas ruas centrais da cidade observando suas transformações.

Ali estavam Paulo, Rufino e seu tio Caetano. Alicerces da escola que tanto marcaria sua vida. Via crescer a cada dia aquele grupamento; via sua tia bordar a bandeira raiada azul e branca; a primeira bandeira de duas faces da escola, a mesma que está aí até hoje; via passar o livro de ouro e a "caixinha" de seu Rufino que custeavam o carnaval; via seu tio projetar a águia, marca maior do nosso orgulho e da nossa força.

Na vizinha casa de seus tios, nos fundos da sede da jaqueira, veria as primeiras e rudimentares alegorias serem construídas por ele acompanhado por Candinho, Arlindo Costa, seu Juca e Jibóia; como poderia imaginar as dimensões que aquelas geringonças alcançariam nos carnavais que hoje assiste pela  televisão?

Em Barra Mansa e em toda a região do vale do rio Paraíba a decadência da lavoura cafeeira deixava longe os tempos de fartura e de muitos empregos por ali.

Entre tantas outras, a família de Maria das Dores, sem o pai, migrava para a capital na esperança de novos empregos para seus irmãos e os sobrinhos criados por sua mãe. A nova moradia ficava no alto da Ladeira do Faria, quase na junção com a Ladeira do Barroso, no cume do morro da Providência, atrás do prédio da Central do Brasil.

De lá nunca mais sairia: - É o meu morro!

Vida que segue...

Aqui, na então capital, o Brasil vivia a farsa de uma república proclamada e não praticada; o país nas mãos ora da oligarquia do café, ora da do leite. Os jovens tenentes do exército brasileiro eram aniquilados pelas tropas federais no Forte Copacabana e entravam para a história como os "Dezoito do Forte". Mas a luta dos tenentes continuaria...

Já com Getúlio no poder chegava a adolescência dessas duas meninas.

Doralice, com o adoecimento de seu pai, após breve passagem por uma camisaria de Madureira, consegue aos 13 para 14 anos se empregar em uma fábrica que produzia embalagens de papelão para a casa Granado, localizada na Rua Visconde da Gávea número 121, quase ao pé do Morro da Providência, bem ali onde morava

Maria das Dores com sua mãe e seus irmãos.

A mesma fábrica onde, pouco tempo depois, a menina Maria das Dores conseguiria seu primeiro emprego, longe ainda de ter completado seus primeiros quinze anos. Primeiros de muitos e muitos quinze anos.

Ali o primeiro encontro de duas meninas. Para uns ... destino; para outros... coisa dos deuses do carnaval...

Na verdade a menina Doralice era a Dora, e a menina Maria das Dores era Dodô.

Dora mesmo tão menina era quase dirigente da "Escola de Samba Deixa Falar", de Oswaldo Cruz. A ela cabia cuidar da bandeira e levá-la para casa após os ensaios além exercer as funções de diretora social, vez por outra substituindo uma ou outra porta-bandeira ausente. Naquele período vencera o concurso de venda de votos tornando-se rainha da escola.

Não havia uma semana que Paulo deixasse de jantar em casa de sua família. Por ali passavam todos aqueles jovens que construíram uma história tão bonita. Uma história que ela via nascer sem poder imaginar toda sua dimensão. Na fábrica a menina Dora era "Chefe de Mesa", já ali também acumulando grande responsabilidade.
E foi assim que em uma manhã do tempo a fábrica de embalagens recebia uma nova operária. Menina ainda, magrinha, esguia, olhinhos muito espertos, com um ar muito abusado. Trabalhando sob o comando de Dora, Dodô passava a fazer parte do grupo do qual faziam parte Rosinha, Laudelina e Miranda, trabalhadoras residentes em Oswaldo Cruz e que no carnaval desfilavam na "Vai Como Pode".

Nos primeiros tempos, Dodô ia almoçar com sua mãe e suas irmãs ali perto em sua própria casa, exceto às segundas-feiras. Nesse dia não subia. Ficava ali ouvindo Dora contar as histórias do fim de semana: os ensaios da escola, os rapazes e os preparativos para o carnaval.

Pela primeira vez ouvia nomes que seriam presença constante em sua vida futura: Cecília, Aidéia e Braulina, primeiras porta-bandeiras da escola, Antonio mestre-sala, Claudionor, Benício, Bam-Bam-Bam. Ouvia falar do vozeirão de João da Gente e de Ventura, da gentileza de seu Armando Passos e seu Cláudio Bernardo, os sambas compostos por Alvarenga, Alcides; as festas na casa de seu Vieira, de seu Napoleão e de d. Esther, e dos ensaios, que eram realizados na rua.

A menina Dora contava que eram Cláudio Bernardo e Paulo que puxavam o samba enquanto João da gente, Claudionor e Alcides versavam. Seus olhos brilhavam quando falava da bateria comandada por João da Gente e do fascínio especial exercido pelas pastoras Noêmia, Rosa, Huga, Maria de Lourdes além de Diva, Margarida e Ninita, suas tia, mãe e irmã, todas animadíssimas esperando o carnaval chegar.

E contava da presença de Paulo, sobretudo a presença soberana de Paulo da Portela.

Com o passar dos dias, a menina Dodô não mais ia almoçar em casa dia nenhum. Preferia trazer a comidinha de sua mãe na marmita e poder ouvir tantas histórias fascinantes para ela. E já agora enrolava seu avental branco na ponta do cabo da vassoura e se fazia de porta-bandeira arrancando gargalhadas da platéia.

Com o tempo o bailado diário de Dodô e sua vassoura deixava Dora encantada com toda aquela graça que a cada dia se aprimorava nas brincadeiras da menina. Dora começava a olhar aquela dança menos como farra de hora de almoço, observando aqui e ali, corrigindo postura da moça e já a olhando com outros olhos: quem sabe?

E foi assim que aconteceu um dia.

Quando se viu sem Cecília, sem Braulina, sem Aidéia, Dora viu surgir a oportunidade que tanto esperava. Sugeriu à escola que desse uma oportunidade à jovem Dodô. Com a aprovação de Paulo, Dodô foi convidada e aceitou fazer um teste.

Eram os preparativos para o carnaval de 1935. Dodô ainda com quatorze anos partia ao lado de sua mãe para o distante subúrbio de Oswaldo Cruz, não sem antes, juntas, rezarem o terço.

De bonde até Madureira, de lá até Oswaldo Cruz a pé: ia ao encontro de sua história.

"Amadrinhada" por Dora, Dodô foi recebida primeiro pelo mestre-sala Antonio e depois pelo próprio Paulo da Portela que se mostrou surpreso e preocupado com a pouca idade da menina. Quando o ensaio começou, sob o curioso olhar de todos, não deu outra: foi show de bola, a escola acabava de conhecer sua nova porta-bandeira.

Dora, Dodô, Laudelina, Rosa e Miranda, estas também operárias da fábrica de embalagens, se abraçaram muito. Tornaram-se inseparáveis a ponto de transformar os momentos de almoço da fábrica em cada vez mais animados ensaios técnicos até chegar o carnaval de 1935.

Os desfiles já se realizavam desde 1932, sempre com a Mangueira campeã. A imbatível Mangueira de Cartola, de Carlos Cachaça, de Massú, de Marcelino. A partir daquele ano as escolas conquistariam novo status dando início à trajetória que transformaria os desfiles na maior festa do Brasil.

E chegava a noite do desfile.

Ainda em casa, antes de rezar o terço e partir com sua mãe ao encontro da escola, Dodô fazia gestos e volteios diante do espelho. Olhava fixamente sua própria imagem como se soubesse que nunca mais veria ali aquela adolescente descompromissada, descomprometida.

Parecia saber que depois daquele desfile sua história e a da escola seriam uma coisa só: abriam ali o incomparável "livro de nossa história", repleto de "conquistas a valer".

Já na Praça Onze, com muito orgulho, Dora entregava para Dodô a jóia mais preciosa de toda aquela gente, aquela bandeira tão bonita e que ela guarda até hoje.

Ao iniciar o desfile, ao ouvir o comando de Paulo, Dodô posicionou a bandeira e olhou em volta. Só então percebia como era diferente pendurar o avental de trabalho na ponta do cabo de vassoura, rodopiar entre as mesas da oficina, e estar ali empunhando a bandeira "de verdade", sendo observada por aquela multidão e pela já então imensa e aguerrida torcida da futura Portela.

O tema da "Vai Como Pode", último desfile com este nome, parecia prever os carnavais de hoje: "O Samba Dominando o Mundo", de Antonio Caetano. Foram dois sambas apresentados: "Guanabara" e "Alegria Tu Terás", dos onipresentes Paulo e Caetano respectivamente.

Dodô estava linda; linda e serena. Tudo parecia um sonho. Tão menina ainda... nunca vivenciara nada parecido com o que estava acontecendo ali naquele momento. Tanta gente dirigindo para ela seus olhares, a escola toda parecia girar em torno de si.

E aquele samba lindo:

Como é linda
Nossa Guanabara
Jóia rara
Que beleza.

Cada sorriso incentivador, vindo ora de Paulo, ora de Dora, parecia dar-lhe asas para rodar, rodar, rodar... drapejar aquela bandeira, aquele azul imenso. As mãos de seu mestre-sala pareciam enormes e seguras, como as garras da águia que passaria a estar presente por toda sua vida. Nunca mais deixaria de desfilar pela Portela, participando de todos os carnavais seguintes, participando de todos, isto mesmo, todos os vinte e um campeonatos que a escola conquistaria a partir daquele primeiro título de 1935.

Dora ficaria noiva do filho de Seu Hermógenes, o primeiro patrono da história das escolas de samba. Uma história de amor interrompida com a morte do jovem Benjamin que saia na gambiarra junto com Nozinho. Recuperada do trauma reconstituiu sua vida permanecendo na escola durante todo o tempo em que esteve solteira. Depois constituiu sua família e fez da Portela sua melhor lembrança, seu maior orgulho.

Com movimentos limitados em razão de uma queda, acompanha até hoje os desfiles de sua escola pela TV. Ao ser reencontrada agora pode rever sua grande amiga Dodô em um festival de lembranças, risos e muita alegria.

Mesmo com a memória lhe pregando peças, ao me ouvir cantar os primeiros versos do samba "Ando Penando", da então "Vai Como Pode" de 1932, emendou direto cantando até o fim.  E assim foi com os outros sambas daquele ano e mais 1934 e 1935. Era só começar que ela mandava.

Dodô e Dora se encontrarão novamente no início do ano quando as duas aniversariam, Dora dois anos mais velha. Dodô estará completando noventa anos, setenta e seis dos quais desfilando pela Portela.

Duas meninas. Duas vidas que a vida juntou um dia tanto quanto as separou depois para agora unir de novamente.

Vidas transformadas em contos que os Portelenses contarão sempre, para seus filhos e para seus netos.

Vidas vividas em glórias, transpassadas para o tal livro de nossa história e que o tempo um dia acabará por transformar em lendas.

Lendas da Portela...

 

Fontes:

* "Paulo da Portela traço de união entre duas culturas", de Marília Barboza e Ligia Santos. Editora MEC-FUNARTE, 2ª edição 1989;
* "As Escolas de Samba do Rio de Janeiro" de Sergio Cabral, editora Lumiar, 1996;
* "Dodô da Portela: Uma História de Vida"- Universidade Estácio de Sá/Instituto do  Carnaval, de Luis Carlos Magalhães/2005;
* Entrevista com Dodô e Dora realizada em julho de 2009 realizada pelo colunista e Heloisa Alves.

 

Autor: Luis Carlos Magalhães