O HOMEM DE UM BRAÇO SÓ

 

Natal

 

Natalino José do Nascimento, nascido em Queluz, mas carioca de corpo e alma. Era um valente. Não um valente como tantos outros existentes, mas um valente único. Um homem que deixou sua marca na história do samba carioca, na história da cidade do Rio, na história da mais carioca das contravenções: o jogo do bicho, é claro. Deixou, como aprendizado, o que é ser Portela.

 

 

Natal foi um sambista-rei. Rei do samba, do bairro, da cidade. Natal foi um sambista que nunca fez samba, que nunca desenhou um passo, que nunca cantarolou um refrão.

Às vezes nos perguntamos de onde surgiu tanto respeito, tanto temor, tanto amor e ódio por um homem comum, que andava sempre com seu paletó de pijama, chinelos, com um cigarro no canto da boca, chapéu na cabeça e com apenas um braço?

Natal dizia que se tivesse dois braços seria covardia!

 

Natal na Infância

Natal nasceu em Queluz, interior de São Paulo. Com três anos de idade perdeu a mãe, quando então seu pai e seus avós resolveram sair de lá, indo para o Rio de Janeiro. Morava em um barraco perto da beira de um riacho, lugar conhecido como Cachoeira Grande, perto do Méier e de Lins de Vasconcelos. Era uma casinha de sapê, muito pequena, onde as pessoas tinham que se agachar para entrar.

Nesse lugar Natal passou sua infância, infância de miséria, de agruras e, também, de sonhos....

O garoto Natal era terrível, não parava em escola alguma, vivia sendo expulso. Segundo ele, algumas vezes foi expulso por racismo, já que era negro e as escolas queriam alunos brancos; outras vezes, porque aprontava mesmo. Nessas suas expulsões, levava sempre com ele sua irmã Aracy, a quem chamava de Neném.

 

O Acidente

Quando era rapazinho, Natal entrou para a Central do Brasil, por intermédio de seu pai, Napoleão José do Nascimento, antigo servidor como guarda-freios. Começou como aprendiz, ao lado de seu pai, depois trabalhou como condutor de trem, cabineiro, telegrafista. Como era bom funcionário, conquistou amizades e a proteção de um chefão da Central, o engenheiro Cícero de Faria. Começou a trabalhar com 19 anos e, quando tinha 25, aconteceu o acidente que mudaria a sua vida por completo.

Era uma segunda-feira, de manhã, e Natal custara a levantar da cama; o despertador foi implacavelmente jogado contra a parede e Natal pensava, pela primeira vez na vida, em faltar a um dia de trabalho. Sua mulher insistiu, alegando que ele assumira um compromisso com o Dr. Cícero, seu protetor e chefe, que seria testar um aparelho novo. Natal então levantou e pegou seu trem para São Paulo. Pernoitou por lá e depois voltou para o Rio de Janeiro, com o tal aparelho ainda em teste. De Jacareí à estação de Oswaldo Cruz, fez todos os testes e verificou que o aparelho era excelente. Deu uma passadinha em casa e voltou para o trabalho. Natal parou então em um guichê de venda de passagens e ficou de papo com um velho conhecido, esquecendo assim do tempo. De repente, viu o trenzinho Paracambi-Barra chegar e recebeu uma bronca de um guarda da estação que decerto não o conhecia. Natal bateu boca com o guarda e quando viu, seu trem já estava partindo. Saiu correndo em direção à porta ainda aberta do trem e calculou um salto e pulou...

Como o tempo estava chuvoso e já anoitecia, seu sapato deslizou no cimento molhado da plataforma e ele caiu na escuridão. Natal ainda contraiu-se todo, o mais que pode, e, por sorte, enfiou-se em um buraco, escondendo quase todo o corpo, ficando de fora apenas o seu braço direito.

 

O Prestígio

Natal recebeu alta e perdeu seu emprego, sem nenhuma indenização, e não conseguiu mais arranjar outra ocupação. Certo dia, um rapaz falou que tinha um emprego para ele. Natal tinha que procurar um senhor chamado Capitão Amorim e logo foi mandado para Turiaçu, considerado por muita gente um lugar perigoso e temido. Aos poucos Natal foi tomando conta da situação e o respeito por ele já era grande. Foi trocando as armas pelo papo graças ao seu prestígio. Natal começou no jogo do bicho como simples empregado e mais tarde se tornou agente e por fim "banqueiro". Nessa época, chamou alguns sócios e fundou a firma Haia, que durante muito tempo foi uma das maiores organizações do jogo do bicho. Em Madureira sua banca era absoluta. Entre 1951 e 1958, a zona de Madureira vendia mais jogo que todas as outras bancas juntas. Foi aí que seu nome se consolidou.

Com o passar do tempo, Natal se transformava em um gigante; seu nome era saudado, reconhecido e cumprimentado por todos. Natal ajudava a todos os que pediam dinheiro para ele, movido pela lembrança de sua infância pobre. Ajudava as instituições de caridade, as igrejas, foi através dele que Madureira conheceu o asfalto. O prestígio de Natal era tão grande que o Itamaraty, por intermédio de Negrão de Lima, Ministro das Relações Exteriores, resolveu entregar-lhe a responsabilidade de receber a Duquesa de Kent, com um show de samba.

Natal foi preso por assassinato. Matou em legítima defesa e esperou pacientemente preso seu julgamento, que deveria ocorrer em quatro meses, porém Natal achou pouco tempo de prisão por ter matado um homem, e só aceitou ser julgado quando tinha nove meses de prisão. Foi absolvido e libertado. Uma multidão o esperava do lado de fora do presídio para saudá-lo.

 

Natal e o Futebol

Natal era apaixonado por futebol, e através de um convite feito pelo seu amigo Carlos Teixeira Martins, aceitou ser dirigente do Madureira, ocupando o cargo de Diretor de Patrimônio. O clube se encontrava em situação financeira terrível e com seu dinheiro ergueu o clube, construindo um novo campo com arquibancada, piscina e até placar eletrônico. Com isso, foi despertando muita inveja, até que se cansou e em uma reunião com os demais diretores, anunciou sua saída, sem levar nenhum centavo.

 

Promessa para Nossa Senhora da Conceição

Natal era um boêmio, passava o dia no Botequim do Nozinho, seu irmão mais novo. Em um desses porres, foi levado por sua mulher e seus filhos para casa, que ficava na estrada do Portela, num matagal perto de um rio. Nessa noite choveu muito e o rio começou a subir. A água invadiu seu barraco e se não fosse sua mulher, D. Iota, teria morrido afogado, já que estava muito bêbado e não conseguia nem se levantar. Desde esse dia, ele fez a promessa de nunca mais beber, e não bebeu mais.

 

Natal e a Portela

A história da Portela está intimamente ligada à vida de Natal, já que foi no fundo da casa de seu pai, na esquina da rua Joaquim Teixeira com a Estrada do Portela, que foi fundada a escola, em 11 de abril de 1923.

Foi com a morte de seu amigo Paulo da Portela que Natal resolveu gastar seu dinheiro para transformar a Portela na maior de todas as Escolas de Samba. Natal fez isso por prazer, amor à Portela e em memória de Paulo da Portela, que, segundo ele, era a própria Portela enquanto vivo.

Em 1959, a antiga sede da Portela começou a ser construída com dinheiro de Natal.

Em 1972, Natal começou a construir a atual sede da Portela, o Portelão, com ajuda do seu amigo Carlos Teixeira Martins, que na época era presidente da escola.

Natal resolveu descansar, já que a Portela estava em boas mãos, porém Carlos Maracanã teve que se afastar e durante o ano de 1974 Natal reassumia a sua escola.

 

A Despedida

No ano de 1974, Natal recebeu a maior homenagem de sua vida. Ao atravessar a avenida de desfile para resolver um problema na dispersão da escola, Natal foi reconhecido pelo público presente que começou a ovacioná-lo, como reconhecimento ao maior de todos os sambistas.

Depois desse ano, Natal, que já tinha sofrido vários infartos, enfisema pulmonar e insuficiência cardíaca, caiu para não levantar mais. Afastou-se da Portela e saía de casa apenas para ser internado.

Em uma tarde, foi transportado quase morto para o hospital Carlos Chagas. Era o fim que se avizinhava e ele sabia disso. Porém, sabia que tinha cumprido seu dever de ajudar as pessoas. Natal se foi...

Milhares e milhares de pessoas caminharam por mais de cinco horas no cortejo que saiu do Portelão, onde seu corpo foi velado, e passou por toda Madureira, seguiu para Oswaldo Cruz e de lá para o Cemitério Jardim da Saudade. Milhares de pessoas choravam e acenavam com lenços no último adeus ao seu líder, chefe, amigo, padrinho, guia...

Natal foi embora
Aqui ele não volta mais não
Foi morar no infinito
E virou constelação.

 

 

Bibliografia:

NATAL, O HOMEM DE UM BRAÇO SÓ, de autoria de Hiram de Araújo e Amaury Jório.

 

 

 

Filme: Natal da Portela (1988)