Meu espírito é marcado por um vento constante. Ora parece uma suave e inofensiva brisa, ora um impiedoso e devastador furacão. Em minha pele, os traços indeléveis do tempo. Do alto, vejo pobres crianças me olharem com incontido desprezo. Brincam lambuzadas pelo melado que já estou enjoada. Em seus lábios sujos, um cínico sorriso debochado.

Desço às profundezas para vê-las melhor, tocá-las. Quero apenas que o ouro enfeite quem realmente mereça ser enfeitado. Pego meus vinte e um colares e ergo-os ao céu, refletindo os intensos raios do sol tropical. Sua luminosidade dourada cega temporariamente os olhos infantis, decifrando o octogenário código da verdade.

Alço novamente meu vôo majestoso. Agora, nos semblantes das crianças, a mais fiel tradução do espanto. Me olham extasiadas e perplexas. Aqueço-me com a paixão daqueles que me têm amor. Quem sois vós para me avaliar, infelizes pecadores?

Então, me recolho aos meus próprios mistérios. Estou cansada, é verdade, mas ainda tenho forças para disseminar a felicidade. Meus encantos ainda são honestos. Minhas próprias dúvidas se dissipam na vastidão da certeza. Hoje, a sinceridade daqueles que me amam revigora meu velho corpo dolorido. Sinto a excitação dos jovens invadir a experiência que vivi.

Respeito, teu nome és Portela.

 

Autor: Fábio Pavão