Súbito, sou tomado por imagens e nomes que habitam o barro, as pedras e o asfalto daquelas ruas de Osvaldo Cruz e Madureira. Gostaria de cantar um canto de chamamento para todas as pessoas presentificadas nos meus sentidos, mas não sou Paulinho da Viola que bebe da chamasamba a permanência das rosas canções.

Mas, visitado pelo cheiro do café na caneca feita de lata de óleo de seu Antônio, lembro de dona Anita, trajando fraque e cartola, tudo em lamê – tecido raro hoje em dia, que vestia de azul e dourado uma doce cafonice de luxo – e seu bastão, com uma pequena luz na ponta, invadindo a vizinhança: a homenagem a Pizindim. Mas dona Anita emudeceu desde o gurufim de seu Antônio – calou-se mais uma voz na Portela e no Rosa de Ouro, mais nova afilhada azul-e-branco. Recolheu-se dona Anita, foi colhida dona Anita.

Talvez procure um sentido para o que não entendo na inevitável crise da idade nova. E é inevitável o retorno e me torno feto e quero o escuro, úmido e quente abrigo.

Ato os contos e as contas, que fiam e tecem doces ausências. A saudade. E refaço a felicidade. Ela para mim é música, é acalanto. E as vozes que me embalaram e me constróem estão aqui, Claras. Vejo a divulgação de um musical sobre Clara Nunes através das canções por ela interpretadas. Uma imensa saudade insiste em me cercar e corro para procurar os cds. Desfiam-se brasis, negros, brancos, índios, mulatos, caboclos. O sertão inunda o litoral. Presença inteira em minha saudade.

Existe algo que não entendo e feito cachoeira me invade: estou para me emocionar, mas a estréia é para a classe artística, e eu, penetra, submeto-me aos códigos do bem portar. Todos são amigos e é mais um musical de sucesso popular, enfim.
Sim, a Clara luminosidade está aqui, sobretudo em época de escassez. A atriz invoca a alegria e a espontaneidade da mineira. E qual mineira, garimpa timbres, que à mineira, se revela sob a tessitura de uma voz bonita. Os gestos da artista revelam a artesã que faz ofício na representação. Mas vejo a apresentação. Existe a intérprete atrás da intérprete, e sua verdade finalmente se traduz.

Explodem sambas-canções, boleros. Os partidos altos se anunciam e anunciam a saga da mensageira. Arco-íris entre margens, batuques e macumbas. Cantos, danças, e um crescer que aos poucos trava a saliva na garganta. Explode o fuzuê do rodopio, os guizos, os colares de contas e Clara vem e está ali. Doces melodias embalam a felicidade da mulher. Mas o silêncio à capella descerra panos e turvos tules em nossos olhos voam. Onde está a guerreira?

Ao redor, a educada platéia funga na emoção daquela absurdo e desmedido deixar de ser . Que penar pesa sobre o que não temos mais.

Como quando, ao fim da agonia – de certo, para nós, testemunhas.

Mas, empunhando a saia, levanta do chão as estrelas da bandeira, da Portela. O céu é azul, mas o chão também. Os orixás protetores se revelam, descortinando a fé na obra da artista.

Confusas imagens chegam para me fazer ver aquele início de tarde.

O boca-a-boca se espalha pela estrada do Portela. “Ela está sendo velada na quadra.” Lembro que eu e minha irmã fomos lá, sem saber ao certo do que se tratava exatamente – comprávamos alguma coisa. E o portão aberto, a fila se formando. Uma tristeza calma pairava sobre o Portelão. Ali, cantou tantas vezes, tantas vezes sorriu, gargalhou, abraçou os pretos, os brancos, os mulatos, as crianças, as vovós. Prometera voltar, inclusive, talvez no 60º aniversário da Escola que aprendeu amar e exaltar. Voltara para sempre, não do jeito como todos queriam, cantando; mas voltou para sempre, eternizada nos testemunhos e histórias de quem com ela viveu. Está para sempre.

E não há quem possa esquecer que o povo para quem ela cantou velou, em sentinela, a guerreira.

Conforme ia se aproximando o momento da despedida, não se podia conter o que é a verdade de uma gente: como, de repente, o abandono? As câmeras registram, os olhos já não vêem mais.

Momento de extrema tristeza: O corpo de Clara deixa o Portelão rumo ao São João Baptista. O cortejo sai, o carro segue seguido pela multidão. Até então, nunca tinha visto uma despedida tão comovente:

Pela Arruda Câmara – como se chamava a atual Cantora Clara Nunes – comprime-se a gente toda. Ao longo da Carolina Machado, estendendo-se pelas estações de trem de Madureira e Cascadura, dos dois lados da rua, os lenços brancos são agitados e tantas lágrimas. Estava indo a intérprete.

A noite, finalmente, caía.

Autor: Rogério Rodrigues