“...Hoje a alegria do palhaço
Na tristeza dá um laço
E faz minha escola cantar...”
 
Não se trata de uma história que costumo sair por aí contando, mas eu, independente de sangue verde, gosto de samba por causa de um portelense. Um portelense chamado... Paulo! Paulo de Castro, meu avô materno, que teve bloco de carnaval lá em Coruputuba, uma vila de operários da Cia. Cícero Prado de Papel e Celulose, na (à época, ainda mais) pequena Pindamonhangaba dos anos 1960.

Mineiro e ex-palhaço de circo mambembe, meu avô deixou a vida de nômade pelo amor de Dona Luizinha, minha avó, e ali mesmo em “Coru” deixou crescer fundo suas raízes. Ele era um apaixonado pelo samba e pela sua querida Portela. Mas o Seu Paulo não escondia de ninguém a verdadeira fascinação que tinha pela genialidade do Mestre André e pela bateria da Mocidade Independente. Em casa, tinha praticamente todos os LPs dedicados à escola, e os ouvia o ano inteiro. Só o fazia escondido durante a quaresma, quando Dona Luizinha punia com pancada até a mais leve batucada à mesa de jantar.

A quarta filha do casal (seriam seis filhos no total, mais uma de criação), Virgínia Luiza – que eu, sem medo algum de passar por um petiz espichado, costumo chamar de mamãe – cresceu naquele ambiente, com o pai portelense falando o tempo todo da bateria independente. Acabou virando Mocidade. Nutriu desde pequena o sonho de desfilar na escola, mas só teve as condições para realizá-lo muito depois, quando já tinha dois filhos. Eis que o primeiro deles herdou do avô o gosto pelo samba, e da mãe o deslumbre pela verde-e-branco de Padre Miguel. Até hoje, quando volto à Pinda para visitar a família, é frequente ouvir dos tios, tias-avós e primos em n graus: “Olha lá quem finalmente largou um pouco o samba para vir nos visitar: a encarnação do Paulo de Castro!”.  

E é essa a história de como eu gosto de samba, e do porquê de eu torcer pela Mocidade. É essa também a minha ligação com a Portela, que fez com que o lindíssimo samba-enredo da escola para 2012 me tocasse ainda mais profundamente. Tocou tão fundo que lá pelas tantas das eliminatórias, já inebriado pela aura destemida e quase mística que este samba tem, fiz a promessa de que se ele vencesse o concurso eu, pela primeira vez, compraria uma fantasia para desfilar. Promessa é geralmente algo que se faz na necessidade. Se promete algo sacrificante, na esperança de receber em troca alguma coisa que se deseja ardorosamente. Nesse sentido, é até pecado dizer que fiz uma promessa. Eu fui mesmo é esperto! Me coloquei exatamente na situação em que eu queria estar. Estou muito feliz e ansioso por fazer minha estreia na Majestade. Pouco depois venho, mais uma vez, na minha amada Mocidade. Será um domingo para testar as calibragens do coração.  

Porque Águia e Estrela... É tudo coisa do céu. Lá em cima é que se encontram.

Um Castro vai cruzar a Avenida defendendo a Portela, coisa que meu avô, que morreu pobre como nasceu e ainda muito jovem, só podia sonhar em fazer. Vocês, meus amigos, não têm ideia do quanto isso é forte pra mim.  

Chego finalmente à conclusão de que, no meu ABC íntimo, Oranian é Paulo de Castro. Portelense.

 

Autor: Pedro H. de Castro Simões.