O longo período que antecede a escolha do samba-enredo não é só uma competição entre compositores. Ao contrário. Em torno dessa disputa, pode-se perceber que os laços de amizade e de família ainda são a razão de uma escola de samba.

Os meses de agosto, setembro e outubro são marcados por angústia e ansiedade, em especial, na Portela; provavelmente, a escola que apresenta a maior e mais difícil disputa de samba, pela quantidade de composições envolvidas e pela qualidade da ala de compositores. Torcer ou não por este ou aquele samba por amizade ou esperar o desempenho daqueles que, virtualmente, apresentam as melhores condições para um bom desfile? Nem sempre se acerta, nem sempre é possível manter neutralidade, mas sempre é possível ouvir os apelos do coração. Emoção não é quesito - ainda bem! - mas continua sendo o tempero desse desmedido e inexplicável amor à Portela.

A mesma emoção de parentes e amigos que se empenham em picar papel, encher bolas coloridas, fazer fitas, distribuir as letras dos sambas; e, ao mesmo tempo, o descompromisso das crianças que brincam no meio da quadra com a sobra de tudo isso, numa eterna e sempre primeira batalha de confetes e serpentinas. A mesma emoção de uma final! Algumas até engraçadas, como em 99, quando, no inesperado e entusiasmo do resultado, uma amiga caiu e derrubou todas as mesas e cadeiras ao seu redor e enfiaram o dedo no meu olho.

Para este ano, a safra foi considerada por muitos muito boa, com um bom número de composições que honrariam, com orgulho, as melhores obras já cantadas na avenida. Mas foi a emoção o diferencial na escolha. A quadra quis, a Escola quis. E já vinha preparando o seu melhor sorriso para cantar com alegria e emoção o samba que melhor traduzia o sentimento que o portelense traz em seu peito. Com a satisfação que as boas recordações nos trazem. E que emoção!

A imprensa noticiou: os compositores campeões foram conduzidos nos braços do povo que encheu a quadra. Mas só quem estava lá sabe do que a emoção é capaz. Três sambas, três estilos. Mas, corações e mentes se abriram para a síntese das belas melodias com a descontração dos mais memoráveis desfiles dos anos 70 e 80. E nossos corações ficaram em festa.

Pude presenciar, em meio à festa do Dia Nacional do Samba, no encontro das águas de todas as cores que corriam pelos leitos da Central do Brasil, a emoção que o surdo de terceira do nosso ritmista Timbira fez jorrar pelas plataformas. Era um cortejo irreal. Enlouquecido. Era o povo.

E a mesma emoção se renovou em água, em chuva: papéis picados caíam, balões coloridos voavam, e se o céu, outrora azul, verteu suas lágrimas, foi porque se emocionava, e minha alma comungava aquela sempre renovada emoção.

Por que um rio une a cidade de mar a mar? Não sei ainda, mas a Rio Branco, naquele 28 de dezembro, foi desaguada por um rio azul. Era a Portela. Pontilhada da Praça Mauá até a Cinelândia (pouco antes do marco do Obelisco, limite das antigas praias de Santa Luzia e Russell, logo ali ao lado onde a Fonte dos Amores eternizou a lenda de Vicente e Suzana), onde o povo faz história, o vôo da Águia fez renascer a glória daquele palco onde já fomos campeões. E fez-se a fonte, o córrego, o volumoso rio: o povo de todas as cores, de todos os jeitos engrossou as águas, e fez-se ondas que bordaram a avenida de espuma, me arrastando, arrastando todos que se despediam de mais um ano a sambar.

Não me canso de lembrar que, no outro palco, o Theatro Municipal, havia o Quebra-Nozes. E nas sacadas, as bailarinas embalavam-se com a nossa arte. E na sua escadaria, também palco de tantas manifestações de outras artes, choveu outra chuva: os quentes e calorosos aplausos, no recém chegado verão, eram para a nossa gente, para o que sabemos fazer melhor - samba, música popular brasileira. Se lá dentro havia neve, cá jorrava água em outro estado: em lágrimas, até porque a própria natureza nos pedia para ficarmos.

Não quero pensar em tanto rios e mares. Mas, no fundo, minha emoção está consciente no porvir.

Autor: Rogério Rodrigues