Tempos idos, tão presentes, quentes, no compasso do arrastar dos sapatos, zumzumzum do vozerio, gargalhadas, guizos, o chilfo do tafetá, vagalumes de paetês, espelhos, pedrarias, a turba e o turbante, o cantante, o rodante. Era noite.

No maravilhamento de criança, os vizinhos eram príncipes com espada e lamês, botas, chapéus emplumados. E eram índios, amazonas. Uma corte inteira, uma nação era o que eu habitava e não sabia que era um país encantado. Para onde iam? E nem desconfiava que a escritura do meu caminho fora lavrada ali.

Morava na travessa Vitalina, mais conhecida como buraco. Achava estranho esse nome, pois achava que buraco não tinha fundo e era escuro. Duas ladeiras conduziam para o alto, de um lado a outro. E a escuridão era a noite, e a parca iluminação que vinha das lâmpadas encimadas por cúpulas que mais pareciam flores, em seu verde externo.

Era o tempo dos verões nas ruas de barro, do contar histórias de casas mal-assombradas, da velha da esquina que era louca. E víamos estrelas cadentes e brincávamos de carniça, polícia e ladrão, queimado, puxávamos carrinhos feitos com latas de leite em pó, trespassados por arame ( o eixo! ), cheios de pedras ou areia para dar estabilidade. Éramos engenheiros mecânicos, aeronautas - as pipas e o ignorar as leis da física.

As bolas de gude, a búlica. Como era imenso o meu país. Alegre e mágico.

O suor colava as dobras do pescoço - e que importava aquilo! Depois sabíamos a hora do banho, o talco, o jantar, o lençol branco iluminando a nossa humildade.
Osvaldo Cruz era o meu país. E dentro dele havia aquele derramar de sons e cores. E mal esperávamos para chegar a manhã pra sentir medo de bate-bola, de diabo, gorila, carrasco. E como eram divertidas as negas-malucas, os pais-joão, homem vestido de mulher, mulher de gravata e camisão, times inteiros de futebol. Era o tempo dos sarongues, dos pareôs, das havaianas, das baianas! Onde foram parar?

O pulo da cama e no rádio ecoavam as marchinhas. Cadê?

Era um pique só: o café-com-leite, o pão com manteiga e rua. Meu coração disparava, a excitação e o medo, sem saber o que iria encontrar na esquina. Era pôr o pé na rua e o meu irmão mais velho fechava o portão só pra ter o prazer de ver a gente levar a bexiga na perna ou língua do diabo no braço. Quanta maldade.

Meu índio já estava pronto. Ainda se fazia em casa, com as penas do aviário próximo, morim, costura e cola. Era inevitável a repetição. E era azul e branco. Desconfio que aqueles índios eram americanos, pois sempre tinha que colocar tiras de esparadrapo nas bochechas e machadinhas na mão. Estava pronto para a matinê no Social Atlas Clube. E a volta era um desconsolo. Após tantas voltas em torno do salão e eu era um pássaro depenado. Talvez fosse castigo pela maldade com as galinhas.

Os dias corriam - e muito rápido. E era terça-feira gorda. E não conseguia entender por que não tinha clube. "Vamos ver o carnaval na Estação."

Era o coreto, a banda, a fita com os sambas, os fogos...

Era o falatório: chegou a Portela! E começava: a vibração, o canto, o sorriso no rosto e a compenetração que as coisas sérias exigem. Não tinha corda, nem tapume, muito menos arquibancada. Éramos iguais na diferença. Todo mundo ali era especial: desfilavam na Portela. Que escola rica, meu Deus! E aquela exaltação.
Terminados o canto e o batuque, calmamente, em seus lugares, começavam a caminhar. O apito surgia no ar para conduzir aquela massa. E todo mundo atrás. A Carolina Machado ainda nem existia pra mim. Sabia que era uma rua, escura, as estrelas lá no alto, o arrastar dos sapatos, zumzumzum do vozerio, gargalhadas, guizos, o chilfo do tafetá, vagalumes de paetês, espelhos, pedraria, a turba e o turbante, o cantante, o rodante. Era noite.

O destino era Madureira. "Lá vem Portela!!!" Os fogos anunciavam. O Império já passara. E a multidão aglomerada ao longo da Edgard Romero, o coreto, todos aguardando, cantando e seguindo aquela imponência.

Acabara o carnaval. O trânsito sendo aberto, os últimos foliões, os que teimavam em prolongar a festa.

Minhas lembranças são mosaico de anos misturados, em cuja essência mergulhei para nunca mais sair.

Descobri minha verdade, disfarçada de discreta paixão.

Hoje sei a alegria e a dor do amor. Cresci, insistindo na fidelidade do primeiro amor, porque pra sempre.

Descobri que a Portela e Osvaldo Cruz são a mesma geografia. São o meu país.

 

Autor: Rogério Rodrigues