A mais vaidosa e encantadora das escolas de samba, sem dúvida, mora em Madureira. Floresceu sob a sombra de uma jaqueira, embalou seus cantos no colo de Tia Esther, ganhou porte de nobreza com o príncipe negro Paulo Bejamin de Oliveira, ganhou leveza na roda dos ventos de Dodô e Wilma Nascimento, aguerriu-se com o braço forte de Natal, cresceu alimentada pelo feijão da Tia Vicentina e eternizou-se no canto de sabiá da Clara Guerreira. Nasceu nas veias difusas de Oswaldo Cruz e até hoje enternece corações com seu azul infindo. Porque azuis muitas outras escolas também são, mas o poeta que tentou descortinar o matiz daquele pavilhão foi muito feliz ao expressar a sua imprecisão: “não posso definir aquele azul, não era do céu nem era do mar”. Certa feita, tentou a escola cantar a vaidade na avenida e, fascinada pelo próprio encanto, concluiu o seu enredo falando da vaidade de ser ela mesma. Um samba-enredo em primeira pessoa fez antologia: sintetizou na composição somente essa parte do enredo, e fez o samba mais bonito e vencedor do Estandarte de Ouro daquele ano. No ano seguinte, ela cantou o seu azul. E mais uma vez foi aclamada na avenida!

21 vezes campeã do carnaval. É a Portela, a majestosa Majestade do Samba!

Uma é majestade, a outra foi feita rainha.

Na noite de 29 de outubro, Madureira azulou. Céus e ruas do bairro tomaram cor. As portas da campeoníssima dos carnavais se abriram para receber e empossar sua rainha. Sheron Menezes, a atriz-dançarina, foi convocada para caminhar com graça à frente dos ritmistas da Tabajara do Samba – a extraordinária bateria regida por Mestre Nilo Sérgio, atual vencedora do Estandarte de Ouro. A referida data foi o dia de sua coroação.

Estiveram presentes os integrantes da “família reunida” que Monarco e Candeia cantaram. A Rua Clara Nunes – perfeita homenagem à musa da escola – acolheu uma multidão de corações apaixonados que queriam prestigiar a festa e pisar o solo sagrado daquela quadra. O palco estava iluminado com nuances de céu noturno – um misto de luz da lua com as sombras do firmamento. O palco da Portela parece refletir, sob o fundo em que repousa a imagem de sua águia altaneira, as estrelas do firmamento. Olhar o palco da Portela nos dá a sensação de olhar para o céu.

A quadra da escola fez o tradicional abre-alas, regido pelos artífices da harmonia. No corredor que se formou, portelenses e visitantes se amontoavam para assistir à performance. A bateria esquentava os corações, o vozeirão de Gilsinho preenchia os espaços e cortava os ares. Uma elegantíssima comissão de passistas - trajando elegantes ternos brancos de malandros maneiros, com bengalinhas, chapéu de panamá e camisas azuis – abria os caminhos para a passagem da rainha. Meninas passistas sambavam na quadra, enquanto a comovente passagem das baianas de Oswaldo Cruz e o bailado mágico de Lucinha Nobre e Rogerinho emocionavam os presentes.

Conduzida pela maestria e pela elegância dos malandros portelenses, Sheron chegou finalmente ao palco para ser coroada pelo presidente da escola e pelo Rei Momo. Em seu discurso de agradecimento, sintetizou seu carinho e sua preferência pela escola desde menina, dizendo que ainda não tinha “caído a ficha”. Sheron estava linda e era pura emoção.

A noite, como não podia deixar de ser, vestiu-se de azul e branco e seguiu madrugada afora, com o calor do samba e o afeto natural dos amantes e admiradores da escola. Diretores dançavam felizes, abraçados, contentes. Havia um pouco de Paulo da Portela, Natal, Candeia, Clara Nunes e Elizeth Cardoso naquela festa.

A escola, renovada, exibe seu séquito de jovens fiéis ostentando camisas, águias e todos os símbolos possíveis que traduzem essa paixão e esse orgulho que só os portelenses têm. Pastoras e pastores vêm chegando da cidade e da favela. Tudo na Portela é um esplendor. Desaparecem suas mágoas, linda flor! Todos corriam pra ver... pra ver quem era! Portela! Portela! Uma corrente faz a gente, sem querer, sambar!

Ciente de que não é sozinha e de que precisa do brilho das coirmãs para reinar, a Águia cantou sambas de várias outras agremiações para saudá-las como convidadas daquele encanto. Mangueira, Mocidade, Império, Vila Isabel, União da Ilha, Beija-Flor, Imperatriz... todas gentilmente lembradas. Porque uma Majestade precisa ser, acima de tudo, cortês. E cortesia é dádiva que sobra na elegância portelense.

A noite na Portela é sempre prenúncio de um novo dia. O samba rompe certeiro e, no alvorecer, ficam os traços daquela gente bronzeada que pisou o chão da escola.

A bateria da escola já tem a sua rainha. Mas a Majestade, sem dúvida, ainda sobeja encanto e graça sem igual. Ela veste azul e branco e já viu você chorar na hora do seu desfile encerrar. A verdadeira Majestade é a deusa do samba, e o passado revela. Seus valores não têm fim... linda como um mar azul... meu grande amor, minha Portela!

Há muito mais a se contar numa crônica de uma festa portelense como aquela. Faltam palavras e sobra emoção. A Portela é poesia que se sente mais do que se escreve. Tomaria emprestados os versos poéticos do nosso monarca Monarco...

Juro que não posso me lembrar/Se eu for falar da Portela/Hoje não vou terminar

 

Autor: Hélio Ricardo Rainho.