Como todo ser humano contemporâneo que se preze, tenho lá as minhas idiossincrasias. Uma delas é a resistência em desfilar pela Portela para não deixar de assistir a todo o espetáculo apresentado pela minha escola do coração. Uma forma de aliviar essa incompatibilidade eterna de interesses é participar de um ensaio técnico na Sapucaí, evento que qualquer dia vai atrair contingente semelhante ao do desfile oficial. Foi isso que fiz, pela primeira vez, no dia 10 de dezembro de 2005.

A noite começou numa animada confraternização de amigo oculto de desfilantes da Ala dos Impossíveis, de cuja amizade tenho o orgulho de compartilhar. Por intermédio deles, consegui uma vaga para a realização de um primeiro sonho: desfilar na Portela, mesmo que num ensaio. O tempo não ajudava, trazendo nuvens ameaçadoras e um início de temporal que não me faria desistir de participar. Pena que o mesmo ânimo não se espalhou pelo público, que fez forfait e compareceu em pequeno número.

A chuva passou e não deu mais as caras até o final do ensaio. A escola se organizava na concentração e lá fui eu, atrás dos amigos, procurar nosso lugar de desfile. Não foi muito fácil, é verdade (ah, Portela, preciso ver longe qualquer sinal da desorganização de 2005!), mas, finalmente, conseguimos nos posicionar corretamente. Aos primeiros versos de "Portela na Avenida", emoção e arrepio: vai começar! Aquele clima de expectativa para o início do desfile é indescritível. O corpo começa a balançar - no meu caso, de forma ainda bem descoordenada, num misto de samba rudimentar com passinho de boate - e o hino de Mauro Duarte e de Paulo César Pinheiro é cantado a plenos pulmões. Andamos alguns metros, de mãos dadas para manter a formação das alas, até chegarmos ao início da pista. A já lendária curva do setor 1 é realmente emocionante: a apoteose está à minha frente e a torcida no cangote!

O ótimo intérprete Gilsinho começa a cantar o sambão de 2006 e a bateria do mestre Nilo Sérgio entra para iniciar o seu show. A letra, praticamente decorada, sai numa facilidade incrível, tamanha é a fluidez do samba, que não cansa em momento algum. Não paro de cantar um só minuto, com todo orgulho que o contexto exige. No meio da avenida, vencida a timidez inicial, o corpo começa a se soltar. Já consigo evoluir da forma mais próxima ao que se espera de um sambista. O espaço ao meu redor parece aumentar, permitindo um vaivém ao ritmo do samba, até que um diretor de harmonia resolve me pagar esporro para voltar à formação correta da fila. Fila?!? Em ala comum? Era só o que faltava inventar! O infeliz do diretor foi solenemente ignorado... Dali até a Praça da Apoteose, a sensação de felicidade só aumentava. Apesar do suor e do cansaço, que valem por duas horas de malhação, a alegria de participar daquele ensaio não tinha preço. O sorriso estampado no rosto teimava em não ir embora. E assim, a Portela terminava seu desfile.

Agora é esperar a realização do segundo sonho: ver minha escola fechar o Desfile das Campeãs.

 

Autor: Fabrício Soares