Enveredar-se por onde o dia pára todo dia não é das tarefas a mais fácil, porque toda sensibilidade não basta alcançar as miudezas do tempo. Enxergar o que ele oferece requer paciência. É caminhar sem correr. Passo lento, lente de aumento. O tempo abre e a manhã explode. O amanhecer dos sentimentos impõe a hora e põe de pé. Primeiro o pé direito, o esquerdo e o de sempre, que guia para a virtude, que não se deseja quando se quer o pleno, o máximo, a flor da pele para arrepiar o pelo. Dá para sentir a gota d´agua percorrendo a espinha. Dá para ouvir os passos da formiga na terra fofa. Dá para ver a sombra da luz. Dá para sentir o gosto que o nada tem.

Agora eu já estou pronto para não ser coerente com o tempo. Coitado! Ele já não tem mais aquele vigor dos bons tempos. Aliás, nem poderia ele, hoje, cobrar qualquer coerência, porque anda bem confuso entre o outono e o inverno. Posso então misturar presente e passado como eu quiser. Sou o senhor do tempo, do meu tempo. Agora posso me encontrar com o passado dos outros que é um pouco meu também. Quem sabe não foi nessa rua que o sambista malandreou o passo. Quem sabe não foi nessa esquina que o ritmista alterou o compasso. Estão vendo essa lasquinha branca no paralelepípedo? Foi aqui que a passista perdeu o salto e inventou o rebolado. Os retalhos brancos que vestem o peixeiro é o que deu para juntar dos lenços salgados e úmidos da multidão quando do enterro da cantora. Engraçado mesmo foi quando a porta-estandarte enrolou a bandeira e o povo todo tanto fingiu que não viu que até esqueceu e até hoje ninguém sabe. Que não me espalhem o segredo, mas foi dessa fontinha que muito passarinho bandoleiro bebeu água antes de seguir viagem rumo a paragens mais “célebres”. Tudo isso são histórias que fomos ouvindo pelo caminho.

Mas tivemos outras boas surpresas. Vocês acreditam que por muito pouco não pegamos um autógrafo de um compositor famoso da região? Pena que ele tinha ido batizar mais uma criança. Lembro até que a rua tinha nome de moça, de música, e o número do lugar . . . 950. Esperamos um pouco, mas logo se ouviu uma batucada e pessoas cantando e corremos para ver. Não eram tantos, mas eram felizes. Vinham como podiam e eram bem organizados. Me impressionou o canto das pastoras. Tanto foi o meu encantamento que, quando dei conta, já estava sozinho. Não fosse eu ter seguido o conselho da velha baiana, não acharia o caminho da volta: na ida, fui desenrolando um carretel de linha, o que sobrou do carnaval passado. Caso eu me perdesse, bastaria retornar pelo caminho branco. Tudo como na mitologia! Porque são todos mitos mesmo. As histórias que eles contam são odisséias mesmo. A linha foi indispensável até a metade do regresso. Depois, foi só ir seguindo o cheiro da farofa, da couve, do arroz, do feijão, da feijoada. Foi só ir ouvindo o burburinho, os sons falando, as vozes cantando, os acordes brilhando. E como vestia branco e imitei o céu, que, no início dos tempos, pegou emprestado de Oswaldo Cruz o azul, entrei e me perdi entre as estrelas.

 

Autor: Vanderson Lopes