O ano de 2003 vem chegando e com ele a ratificação de um costume de 80 anos: a ida à Portela. Está certo que nesse tempo o ponto de encontro mudou algumas vezes. A minha dúvida é se o ritual de preparação dessa festa mudou. Para o meu desconforto, não tenho a ajuda do seu Paulo, do seu Caetano nem do seu Rufino. Infelizmente, a essa hora em que todos já dormem, não há oportunidade de desfazer essa dúvida de maneira infalível e inequívoca, a não ser que eu encontre essa trindade num sonho bom ( seria sonhar demais !).

Não contando com esse deslumbramento e seguindo por caminhos menos exatos, peço licença e atesto que se a rota até a Portela mudou, aquele ritual de convocação dos amigos está intacto. O que só nós, os portelenses, misteriosamente sabemos e sentimos é que, tanto na Portelinha quanto no Portelão, há um espaço imaginário na entrada onde nos é permitido deixar ex-votos e tudo mais que nos aflige. Lá cabem vários, milhões deles. E todos eles são bondosamente velados por São Sebastião e Nossa Senhora da Conceição até a hora da saída. Até confesso que esqueço alguns com eles quando volto para casa. Mas os que ficam lá, ficam leves e evaporam com o suor.

Ritual e costume lembram um outro nome indissociável da Portela: tradição. Pleonasmo ou não, o que fez e faz a tradição da Portela é a repetição desse costume. Mas o que permitiu a formação dessa tradição durante esses oitenta anos ? Eu jurava que para essa pergunta eu teria uma resposta até o dia 11 de abril de 2003. Pessimismo meu, ela veio mais rápido. Veio ontem no Dia Nacional do Samba. Até então o que eu sabia é que, para toda tradição, pelo menos duas condições são essenciais: pessoas e lugar. As pessoas, os agentes, são os portelenses, claro ! Mas e o lugar, o ingrediente passivo dessa tradição ?

Foi na partida do Trem do Samba da Central até Oswaldo Cruz que tudo começou a se revelar. Foi incrível ver o povo todo reunido e cantando em cada composição, em cada vagão, as várias vertentes do samba. Tinha samba-canção, samba-enredo, samba-exaltação, etc. Isso sem falar nos afins: choro (Pixinguinha, claro, também passou por lá, e até um solitário violonista tocando Jacob do Bandolim). Mas o que agitou mesmo nos vagões até Oswaldo Cruz foi o pagode. E como deu Tia Doca, hein !!!

Agora, o mais interessante de tudo foi a chegada a Oswaldo Cruz. Quando desembarcamos, estava chovendo. Ora, nada mais oportuno para puxar o clássico da Velha Guarda da Portela “A chuva cai lá fora / Você vai se molhar . . .” (emocionante !). Como se tudo isso não bastasse, decidimos inicialmente pelo lado mais “calmo” da linha do trem, oposto ao lado das barraquinhas (para quem não sabe, ficamos do lado da Carolina Machado). E ficamos num bar na esquina de qual rua ? Da rua Adelaide Badajós, que, digamos, é a rua onde tudo – a tradição - ou quase tudo começou (Tia Esthér, Tia Neném . . .): lembranças de um cotidiano do passado que eu não vivi, mas, não sei como, trago comigo.

Bem, nesse bar encontramos o pessoal da Serrinha que numa tal hora começou a tocar um jongo atrás do outro. Jongo puríssimo da melhor qualidade. O mais interessante: tudo isso feito por gente jovem, vinte anos na média. Foi legal ver a continuidade das tradições. Foi uma prova de que para se inovar é indispensável conhecer, com um mínimo de profundidade, as tradições. Naquela hora, me veio tanta coisa na cabeça: o canto das lavadeiras ribeirinhas, o Recôncavo Baiano e Santo Amaro da Purificação, o caxambu e a Zona da Mata Mineira, Clementina de Jesus e o interior do estado do Rio, São Luís do Maranhão e o Tambor de Crioula, etc.

Depois desse vendaval no pensamento, concluí tudo num só só presente) num lugar difícil de definir se ainda é Vaz Lobo ou se já é Madureira, mas que é facilmente lugar: Oswaldo Cruz, claro! Ainda que o jongo seja uma manifestação mais fortemente presente (ou identificável por Morro da Serrinha, a impressão que me deu (posso estar enganado, mas se estiver peço desculpas, porque agora prefiro a emoção à razão) é que só em Oswaldo Cruz é possível toda essa reunião de ritmos e modos de vida. Talvez em um outro ponto do Rio de Janeiro isso aconteça também, mas de maneira tão natural . . . muito difícil. Verdadeiramente, Oswaldo Cruz é lugar de resistência cultural. Uma pena que atualmente só seja lembrado no dia 2 de Dezembro.

Eu, ontem, reunindo tudo o que me impressionou os sentidos (os cheiros, sons, gostos, abraços e cores), tive certeza de que se a Portela tivesse sido simplesmente criada, isso até que poderia ter acontecido em outro lugar da cidade do Rio, mas como a Portela foi inventada, somente um lugar do Rio reunia as condições naquele outono - estação dos frutos - de 1923: Oswaldo Cruz.

Só me enganei num ponto: como uma invenção só é inovação se agrega valores e concepções novas, culturalmente, a Portela é inovadora porque ela saiu daquele lugar comum de se ter, obrigatoriamente, um ingrediente passivo e outro agente na formação das tradições. Na tradição portelense, tudo age, os portelenses e Oswaldo Cruz também.

 

Autor: Vanderson Lopes