Sou uma senhora de 80 anos. Sou filha de três pais, mas também tive o carinho de muitas pessoas. Muitas, famosas ; e outras tantas, anônimas.

Pequena, ainda, na Barra Preta, fui alimentada com o amor e a dedicação dessas pessoas: e fui crescendo, encorpando e tendo jeito de moça com cabelo nas ventas. Juízo sempre tive, mas sempre gostei de novidades. Dizem, que por esse jeito aguerrido, querendo voar alto, mais parecia uma águia: meu olhar nunca enganou ninguém. Sempre fui direta naquilo em que acredito, mas, também, não consigo disfarçar: sou também doce e acolhedora. Sou filha de Oxum.

Como todo brasileiro, sou católica de formação, devota de Nossa Senhora da Conceição e de São Sebastião. Mas, bato pro meu pai Oxossi, rei Ketu - okê! - e à minha mãe Oxum, doce mãe que me protege, me acalenta e me acalanta e pra quem me visto de azul.

São Sebastião.

Não tive filhos, mas tenho muitas afilhadas, que só me dão orgulho. São belas e estão ganhando admiradores e paixões. Algumas já são campeãs na beleza, na graça, no canto e na dança, outras ainda não. Sinto saudades delas meninas. Abençoei seus passos inseguros do início e pra muitas dei a manta com as cores com que fui consagrada.

Pra outras, leguei um quê de vôo, as asas... e um nome em poético bailar: coisa de namorado. Mas, todas trilham o caminho que ajudei abrir com minha comadre, lá do Morro da Mangueira. Mas, o que importa é que estão aí, levando na raça os valores que nos ensinaram meus pais Paulo, Rufino e Caetano, que aprenderam com meus tios Ismael, Donga, Sinhô, que aprenderam nos terreiros da grande Tia Ciata.
No alto dos meus 80 anos, também olho para frente. Me renovo em cada menino e menina que vêm aqui pra aprender, que vêm cantar comigo, que saem por aí no trem, nas rodas de samba, ou vêm aqui ouvir histórias que tenho pra contar.

Olho adiante esperançosa. Mesmo com os atropelos desses tempos corridos que chamam modernos, não perco o rebolado.

Quando olho pra trás e vejo Oswaldo Cruz uma tranqüila roça, lembro de mim, menina, sob a proteção dos antigos, naqueles tempos difíceis. Hoje, meu berço é um subúrbio esquecido, quente, prisioneiro do asfalto e das fachadas tristes. Não sinto o cheiro da chuva iminente, não vejo as estrelas, e as noites de luar não emolduram os causos e as festas. Osvaldo Cruz é uma eterna lembrança. Talvez doa um pouco esse coração quando rumo em direção à jaqueira que não existe mais e sinto que muitos não me reconhecem. Os tempos são outros, os rostos também. Mas, ainda bem que existem os olhos da primeira vez.

E os enamorados não esquecem nunca mais. Fui baiana, quando rapaz. Já fui rainha, índia, escrava e imperatriz. Fui Bahia, Minas, Olinda, a mais linda Colombina. De soldado, pirata, pierrot, arlequim brinquei o carnaval. A muitos encantei circense e inebriei espuma de mar, o rio-mar. Desfilei nos mais belos cortejos: irreal, rancho, bloco, cordão e sociedade. Casei e contei muita história nacional e de romance. Por eles ainda sou cortejada e amor assim não é fácil de achar.

Tenho a idade da resistência. Parti, rumo a cidade, para cantar a Lapa, o Passeio, a fonte dos amores, a época dos vice-reis, a Tiradentes. Busco as vitrines e os luminosos da Cineländia, seus bancos, pombos, meninos, senhores e sua difícil e nostálgica alegria carnavalesca.

Enquanto houver um coração que palpite, um gesto de aceno, um olhar amante, desnudarei minha alma de cidade-mulher: os recantos, as vias, os mistérios. Qual turista em país estrangeiro, te deixarei o prazer da conquista, pois, em minha geografia, no fim de cada praça, de cada rua, de cada janela, de cada ladeira habita uma história. Juras desfeitas, dramas domésticos, dores de amor, de parto, de luto e prazer.

Resistir, anos a fio, e partilhar com todos aqueles que buscam a fuga da exclusão. Longe do discurso ressentido, sempre busquei a afirmação. E ela se faz com minha arte; eis a minha militância.

Abrigo a arte e o sonho, e esses não têm sexo, não têm cor, não têm abismos sociais. “O talento de um povo que mantém acesa a chama da tradição” e a vontade imensa de estar aí: sou assim.

Atravessei um século quase inteiro. Mas, sei tirar forças de dentro de mim. E não é à toa que nasci alguns meses depois do rádio. Ainda temos voz e ainda há quem nos ouça.

Sei da separação, sei da indiferença, mas jamais caí com os tropeços da vida.

Sou uma negra assanhada e orgulhosa porque sei que deu frutos a semente que plantei.

Sou Portela.

 

Autor: Rogério Rodrigues