"PORTELA, ORQUESTRA E CÔRO ODEON"

 

1963Portela

 

Gravado em 1963 pela Odeon este compacto de quatro faixas é considerado pelo colecionadores um dos mais raros trabalhos titulados com o nome da agremiação de Oswaldo Cruz. “Portela, Orquestra e Côro Odeon” traz na capa uma foto da Tabajara do Samba em desfile, captada no ano de 1961, quando a escola apresentou o enredo “Jóias das Lendas Brasileiras” e faturou o terceiro lugar. A imagem guarda uma pequena relação com uma das faixas gravadas. Vamos aos fatos! 

 

LADO A

A faixa 1 do Lado A apresenta o samba-enredo da Portela de 1964, “O Segundo Casamento de D. Pedro I”, composto por Sebastião Marquês Balbino e Antonio Alves. Este samba fez muito sucesso devido a divulgação que a obra ganhou através do compacto.

 

Marquês Balbino chegou à Portela em 1959. Segundo sua filha, Sheila Marquês, o pai foi levado para a agremiação por Natal, assumindo o cargo de Segundo Secretário. Três anos depois, em 1962, Balbino compôs o samba-enredo “Rugendas, Viagem Pitoresca pelo Brasil”, em parceira com Zé Ketti, Batatinha e Carlos Elias. Já Antonio Alves, membro da Ala de Compositores da Portela, foi parceiro de Wilson Moreira, dentre outros sambistas do período. Além de 1964, Antonio Alves também venceu os concursos de samba-enredo na Portela em 1961 (acima citado) e 1963 (Barão de Mauá e suas realizações) ambos em parceira com Walter Rosa.

 

O samba-enredo de 1964, presente no compacto, é cantado por Zezinho, apelido do intéprete José Delphino Filho, assistente de direção artística da Odeon. Na gravação, a obra ganhou arranjo orquestrado e acompanhado pelo famoso côro da gravadora. Contudo, chama a atenção a modificação ocorrida nas três primeiras estrofes da letra do samba. Elas não coincidem com o samba cantado no desfile da Portela. Provavelmente, a Odeon mudou as primeiras estrofes para agradar os seus consumidores.

 

Tamborim de ouro”, de Ary Guarda, é a segunda faixa do Lado A. O samba exalta a Portela, recordando o prêmio “Tamborim de Ouro” conquistado em concurso de sambas de terreiro pela agremiação, no ano de 1962. Na letra, o autor afirma que a Escola é “a rainha do samba de terreiro”. O samba que venceu o concurso de sambas de terreiro naquele ano e que inspirou Ary Guarda foi Micróbio do Samba” de Marquês Balbino. O compositor representou a escola de Oswaldo Cuz no concurso de 1962, do qual participaram todas as escolas de samba do Rio de Janeiro. Ary Guarda também foi parceiro de grandes nomes da Ala de Compositores da Portela, dentre eles Argemiro, Waldir 59 e Ary do Cavaco e é autor de diversos sambas. A foto usada na capa foi justamente a do ano no qual Marquês Balbino venceu pela primeira vez um samba na Portela.

 

LADO B

 

Um dos ícones da Bossa Nova, o paraense Billy Blanco, participa deste trabalho abrindo o Lado B do compacto, com o samba “O Apito na Escola de Samba”. Na letra, Billy Blanco conta como foi que a Portela introduziu o apito nas escolas de samba. A história é verdadeira. Já a faixa é um belo exemplo de como o swingue da Bossa Nova tratava um tema envolvendo o subúrbio carioca.

 

Fechando o compacto retorna Billy Blanco, com “Lá vem Portela, samba exaltação cantado também pelo próprio autor. Na letra, a agremiação é comparada à mulher e ao sol, obras de Deus. Outra composição com “pegada” da zona sul do Rio de Janeiro.

 

O leitor deve estar se perguntando o que Billy Blanco faz numa obra gravada na década de 60, que tem como foco uma escola de samba? Além de ser portelense, o compositor dava muito valor a produção cultural das agremiações de samba, e cultivava amizades que incluíam Zé Ketti, Jamelão, Nelson Cavaquinho, dentre outros.

 

Este compacto foi regravado posteriormente com outros títulos, mas as faixas foram mantidas. Contudo, são poucos os portelenses que lembram dos sambas gravados nele.

 

A capa e a contra-capa deste compacto foram gentilmente cedidas pelo colecionador Alexandre Medeiros, mais conhecido como “Alexandre da Comissão”, apelido que recebeu por ter desfilado por vários anos na Comissão de Frente da Imperatriz Leopoldinense. Nosso agradecimento!

 

Pesquisa e texto: Marcello Sudoh

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