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Orgulho dos portelenses, o Carlos Reis é um exemplo perfeito da elegância e da dignidade de nossa escola, impondo sua marca de beleza e bom gosto ao lado de nossa águia altaneira. Nesta entrevista exclusiva, nosso primeiro destaque conta um pouco de sua história no carnaval e de seu amor pela azul-e-branco de Madureira.

 

Carlos Reis: Eu gostava um pouco do Salgueiro, e um amigo em 83 me levou para conhecer a concentração da Portela e achei divino. Achava impressionante como Clara Nunes comandava a escola com garra, dizendo para as baianas e componentes: “Vamos entrar com garra!”, “Amor pela Portela!”, “A Portela vai ser campeã!”, “Conto com vocês!”. Falava isso com muito ardor, era realmente uma guerreira. Me aproximei dela e ela disse: – Você está encantado. Um dia você vai  desfilar pela  Portela.

Comecei a desfilar na Portela em 1984, em homenagem a Clara que já havia partido, na Ala do Almirante, com a fantasia de “Oxóssi”. Nézio, quando fundou a Tradição, me chamou para lá e até hoje tenho a carteirinha de sócio-fundador e de benemérito da escola. Desfilei como 1º destaque da Tradição e continuei a desfilar em ala na Portela. Num evento em Botafogo, numa festa da LIESA, eu me apresentei representando a Tradição. O Sr. Carlos Teixeira – que admiro muito e a quem tenho o maior respeito, assim como à sua esposa, os quais são meus padrinhos e me consideram como um filho – e o Sr. Paulo Miranda estavam no evento e logo após a apresentação o Sr. Paulo se dirigiu até mim e disse que o Sr. Carlos gostaria de falar comigo, e ele então me convidou para desfilar na Portela.

 

Portelaweb: E esse amor pela Portela?

Carlos Reis: O sangue azul corre na minha veia (risos). Surgiu quando conheci Clara Nunes, ninguém substitui Clara Nunes. Admiro Natal,Dona Neném, Silvinho, Dedé. A Portela não foi um rio que passou em minha vida, é um rio que está na minha vida, um rio azul, assim como o céu azul, o amor pela Portela é muito grande.

 

Portelaweb: Qual foi a sua emoção em desfilar na Portela pela 1ª vez? Você lembra qual foi sua 1ª fantasia como destaque?

Carlos Reis: A emoção em desfilar pela Portela é muito grande, o lance de estar no carro e quando o carro vira e passa no Setor 01, não tem como segurar a emoção. Peço licença sempre a Clara Nunes, sempre peço que ela me dê forças. A estréia como destaque foi em 1991, com o enredo “Tributo à Vaidade”, do Silvinho (Sylvio Cunha, carnavalesco). Eu estava na 4ª alegoria junto com a Efigênia (esposa do Nézio). A Portela, por sinal, estava bela. Eu visto a fantasia e interpreto o personagem, um destaque não pode vir nunca de perna aberta, é um pé na frente do outro e bailando sempre, inclusive nem seguro o santo-antônio. A Portela é chique, autêntica e bonita (risos).

 

Portelaweb: A Portela sempre contou com grandes destaques na sua história. Você se isnpirou em algum? Qual destaque da Portela você já admirava?

Carlos Reis: Evandro de Castro Lima, GRANDE ÍDOLO, MESTRE! Não era portelense, mas tinha uma leveza muito grande. Agora destaque da Portela admiro Dedé, muito chique, elegante; e respeito Wanda Batista.

 

Portelaweb: Em relação a confecção de fantasias, quantas pessoas trabalham na sua equipe? Você costuma acompanhar a confecção? Como é feito esse processo?

Carlos Reis: Edmilson Lima, não abro mão. Ele sempre confeccionou as minhas fantasias e eu acompanho de perto, o carnavalesco cria mas o costureiro desenvolve, eu acompanho toda mudança. Procuro seguir a cor que o carnavalesco pede, tudo com muita criatividade.

 

Portelaweb: As fantasias de destaque não costumam ser muito baratas. Você arca sozinho com as despesas ou a Portela dá algum tipo de ajuda de custo?

Carlos Reis: Arco com as despesas sozinho. A Portela nunca me deu uma pluma. Nem quero, quando me oferecerem prefiro que direcionem essa verba para a ala da comunidade, bateria e baianas. Eu absolutamente não aceito. A Portela me dá o prazer de desfilar, que já é um presente.

 

Portelaweb: Suas fantasias são sempre exuberantes e de extremo bom gosto. Qual o destino delas após o Carnaval? Por exemplo, onde estão as fantasias de 2004 e 2005?

Carlos Reis: Com as fantasias de 2004 e 2005, desfilei lá em Toronto, no Canadá. Eles se interessaram e já compraram.

 

Portelaweb: Quantas premiações você já teve?

Carlos Reis: Vários terceiros, segundos e primeiros lugares no Hotel Glória. Hoje não desfilo mais concorrendo, sou a participação especial, como se fosse Fernanda Montenegro (risos). Nunca fiz roupa para desfile e sim sempre para divulgar a Portela. Diferente de muitos destaques que fazem fantasias para o concurso e depois tentam adaptá-la ao enredo. Inclusive pode perguntar a Sylvio Cunha e Alexandre Louzada. Nunca ganhei nada em troca, simplesmente divulgo a Portela. Vaidade de portelense é tão grande que é necessário mostrar para todo mundo.

 

Portelaweb: Você sabe que existem pessoas que, com certeza, gostariam de ocupar o seu lugar como 1º destaque. Como você lida com essa questão?

Carlos Reis: Quando ganhei o o posto de 1º destaque, esperei chegar a minha vez. Entrei como componente e Paulo Miranda me intitulou depois de Pedro Martins, e ficamos eu e Wanda Batista. Com a benção de toda a Velha Guarda, inclusive Manacéia, subi cada degrau. O Walter entregou o figurino na semana do carnaval, queria ser o 1º destaque. O Nill quer ser 1º destaque na Portela, mas ele tem de fazer por onde. Na reunião dos destaques ano passado com a diretoria, houve mal-estar quando me perguntaram se eu ia continuar como 1º destaque. O Nill simplesmente não aceitou e ... enfim, se a Portela achar que ele é o melhor, nunca deixarei de ser portelense, eu sempre divulguei a escola em troca de nada.

 

Portelaweb: Em relação aos desfiles de Carnaval como destaque, qual a pior apresentação da Portela, em sua opinião?

Carlos Reis: Sem dúvida 2005, não me lembro de coisa pior: pelo sofrimento até chegar à avenida, pelo desfile...aquela Portela que passou não era a Portela que conheci em 83. Aquilo foi um sufoco, minha fantasia, que era de um guerreiro, me fez sentir uma fênix que renasce das cinzas. Eu nunca vi tanta gente chorando. No Dia de São Sebastião, já é uma tradição o casal de mestre-sala e porta-bandeira  de entrar com o estandarte na igreja para ser abençoado pelo padre. Este ano foi diferente, passaram pela porta da igreja mas, não entraram, foi só foguetório. O pai-de-santo prometeu, bateu tambor e não cumpriu. Nem em 84 a Portela desfilou tão temerosa (por causa do racha na escola, com a fundação da Tradição). Todos os deuses viraram a cara para a Portela em 2005, só faltava chover, foi o pior desfile da história da Portela. Sofri e sofro até hoje.

 

Portelaweb: Qual foi sua reação quando soube que, na véspera do desfile, uma parte do carro abre-alas no qual você desfilaria pegou fogo?

Carlos Reis: Foi um choque. Eu estava experimentando a minha fantasia, quando me ligaram, peguei meu carro e fui ao barracão. Quando cheguei lá me dei conta que estava com a cabeça da minha fantasia na mão, aí o Amarildo disse: “Se a cabeça é bonita desse jeito, imagine o resto da fantasia!”. Parece que tinham tirado um pedaço de mim quando vi aquele carro incendiado, eu não acreditava naquilo, não sei se foi sabotagem, se o carro não ia ficar pronto e colocaram fogo, enfim, as pessoas no barracão estavam desesperadas. Muito debilitado, pensei: – Como será agora? Desfilo com toda aquela fantasia, nem que seja no chão, como no desfile do “Divino”, quando meu carro quebrou. E pensava: “Sou portelense e não abro mão de desfilar”.

 

Portelaweb: Você estava no carro em que veio a águia? O que realmente aconteceu na concentração, em detalhes?

Carlos Reis: No domingo me disseram para não me preocupar porque iriam colocar outro queijo na parte do abre-alas que sobrou. Segunda-feira, como de costume, fui conferir as alegorias e achei estranho que o carro do palhaço estava na frente do abre-alas. Quando cheguei perto do meu carro, vi que o queijo não estava firme e coloquei um carro à disposição do ferreiro da Portela para rever o problema a tempo. Rolou aquela ajuda de custo básica e consegui fixar o queijo. Os aderecistas estavam apavorados e sem saber o que fazer, porque não sabiam com o que decorar o queijo. Cataram sacos de lixo e restos de adereços  que ficam jogados na Avenida Presidente Vargas e enfeitaram o queijo; no santo-antônio, enrolaram um plástico.

Chegado o grande momento,  as asas da águia foram feitas com encaixes muito justos e perderam muito tempo tentando encaixar as asas na águia. O tempo foi passando, a escola já era para estar na avenida. Resumindo, o moço do “Carvalhão” me disse que a escola entraria sem o 1º destaque, por causa do tempo, e toda a minha fantasia já estava montada no carro.Eles não podiam me colocar no queijo enquanto não finalizassem a montagem das asas da águia. Pedi por Clara Nunes, pedi pelos orixás, não sei o que aconteceu que saí empurrando todo mundo que estava na minha frente e escalei o carro literalmente (todo montado, com bota, luva). Quando cheguei lá em cima, tremia muito e as pessoas me aplaudiram. Graças ao manto azul e branco e à padroeira do Brasil, consegui desfilar. Isso tudo é muito chato e doloroso.

 

Portelaweb: Apesar do fato lamentável ocorrido no Carnaval de 2005, quais são seus planos para a Portela em 2006?

Carlos Reis: Continuar defendendo a escola, custe o que custar, não sei o que está reservado. A Portela neste último ano tem sido uma caixa de surpresas. Procuro sempre respeitar a nova diretoria, chego sempre para somar e não para dividir, não preciso fazer média com o presidente. Vou lutar sempre para que respeitem a posição que adquiri dentro da Portela, a de ser o 1º destaque, não abro mão disso, desde que eu fui para a Portela, nunca desfilei em nenhuma outra escola e isso tem de ser respeitado se o enredo combina comigo ou não venho sempre. E mesmo que eu não continue como 1º destaque, nada impede que eu compre uma fantasia e volte a ser componente.

 

Portelaweb: Nós, da Equipe Portelaweb, só temos a agradecer por você ser um destaque tão competente e esperamos que você continue conosco por muito e muito tempo. Obrigado!

Carlos Reis: Com certeza, procuro fazer sempre o melhor. A Portela tem que estar entre as primeiras. Quando Natal, com um só braço, cortava as alas que não queria e colocava ordem na escola... hoje são várias mãos na Portela e não acertam. Estarei sempre disponível, o site PortelaWeb é um site que é muito respeitado no mundo do samba.