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PortelaWeb: Como vocês se organizaram para retomar as feijoadas na Portela em 2003?

Marquinhos de Oswaldo Cruz: A história da retomada é mais antiga. Ela surgiu em 2000, quando a Portela quase foi rebaixada. Conversando com Denise e alguns amigos, falávamos da importância de unir a família portelense e a partir daí foi lançada a ideia da feijoada. Procurei o “seu” Carlos (Carlinhos Maracanã), mas ele não quis fazer. Surica insistiu, encheu o saco mesmo, mas ele não concordou.

Houve a invasão da quadra e logo depois o falecimento de “seu” Argemiro. O velório foi na quadra. Durante o velório, a Cristina, da diretoria da escola, me chamou para conversar e perguntou sobre a ideia da feijoada. Expliquei tudo, ressaltando a necessidade de unir a família portelense.

A ideia inicial era reunir os antigos e os novos. Conversei de novo com “seu” Carlos e falei que deveríamos convidar a Velha Guarda para abrir a feijoada. Ele concordou e disse que poderíamos fazer da nossa maneira.

Saímos em campo. Eu, Denise e Áurea fomos de casa em casa, convidando as pessoas para participarem. Foi uma experiência emocionante. Alguns receberam o convite com lágrimas. Pedimos que no primeiro dia todos fossem de azul e branco. Foi um dia maravilhoso.

É o que estamos fazendo hoje, nesta nova retomada. Pedindo que cada um convide mais cinco portelenses para as feijoadas.

 

PW: Você acha que a diretoria da Portela valoriza a feijoada, tendo em vista que hoje ela é um dos principais eventos da escola e do samba?

MOC: Um dos principais problemas dos novos governos é manter o que vem dando certo do governo anterior. Uma das grandes virtudes dessa diretoria foi justamente manter a feijoada. Ela podia acabar. Até porque naquele momento, ela sabia que eu, mestre Monarco e a Velha Guarda tínhamos apoiado o Marquinhos. Eles mantiveram.

O grande problema nesse caminho é que depois de algum tempo a interlocução direta com o presidente deixou de ser feita por nós. Quando o filho é bonito, todo mundo quer criar. Com isso entrou um monte de gente no circuito. Agora retomamos o diálogo direto com o presidente. Discutimos com ele todos os problemas.

 

PW: Você e mestre Monarco fizeram um chamamento a todos os portelenses pela preservação das tradições da Feijoada da Família Portelense e respeito “ao território sagrado do samba”. Por que esse chamamento?

MOC: Eu fiquei um tempo sem participar da feijoada. Nesse período as pessoas me ligavam falando, reclamando das atrações, do que se cantava. Meu irmão tocou “Rebolation” na feijoada. Eu voltei como atração em março e pude observar a falta de respeito com os mais antigos. Eu aprendi que o respeito aos mais velhos e às tradições é fundamental no samba. A grande maioria que vem à quadra, principalmente de longe, vem para ver a Velha Guarda. Ela é a atração principal. Um lugar, uma escola que deu Paulo, Alvaide, Manacéia, Candeia, Monarco e tantos outros tem que ser respeitada. A importância dessa localidade e da instituição Portela para a história do samba é incontestável. Por isso o “território sagrado do samba”. Quer fazer festa, quer ganhar dinheiro, isso pode ser feito qualquer dia, não no dia da feijoada. Não podemos abrir mão da essência. A Portela é referência e deve continuar sendo, inclusive para todas as outras feijoadas que vieram depois.

 

PW: Ainda no chamamento, mestre Monarco falou que reclamam que a Velha Guarda é repetitiva. E disse: “nós somos repetitivos porque cantamos Paulo da Portela, Manacéia, Chico Santana”. Você acha esse repertório repetitivo?

MOC: Repetitivo é cantar o que toca nas rádios. Nós queremos aqui exatamente o contrário.

 

PW: Que papel a Portela desempenha no samba hoje?

MOC: A Portela ainda é, principalmente na pessoa de mestre Monarco, referência quando se fala em tradição do samba. Monarco e a Velha Guarda da Portela. Monarco é hoje o que Paulo foi naquele momento. Que o Candeia também foi.

 

PW: O Trem do Samba, um dos eventos comemorativos do Dia Nacional do Samba, é sinônimo de sucesso. Quais os pontos de melhoria ou avanços no evento que serão implementados?

MOC: Vamos implementar este ano algumas mudanças que possam permitir a participação de muitas pessoas que deixaram de ir. Não dá mais para fazer na hora do “rush”. A Supervia não tem condições de garantir. Como vem muita gente de fora, a partir deste ano o Trem do Samba será sempre no primeiro sábado do mês. Já combinamos com a Velha Guarda e com a diretoria da Portela que em dezembro a feijoada será no segundo sábado. A principal comemoração do Dia Nacional do Samba é o Trem do Samba.

Os trens sairão da Central a partir do meio-dia. O evento será durante todo o dia. As pessoas poderão curtir os sambas, os pagodes e também os deliciosos quitutes. Vamos resgatar os famosos quintais das tias. No estilo da Feira das Iabás, transformar os quintais num grande restaurante popular. Vamos ocupar desde a Portelinha até o outro lado, chamado Buraco Quente, com samba e comida.

Outra coisa legal é que vamos fazer também um concurso para premiar o grupo mais animado.

O Brasil inteiro e todo o mundo do samba estão convidados. Teremos um grande prazer de receber todos(as).

 

Entrevista realizada por Almir Barbio