Paulo Miranda é uma das figuras mais simpáticas do mundo do samba. Dispensa maiores comentários e qualquer tipo de apresentação. Cumpre-nos apenas destacar as duas palavras que descrevem fielmente esta personalidade: simplicidade e humildade. Vale a pena conferir esta grande aula!!!

 

Portelaweb: Fale-nos um pouco sobre o senhor.

Paulo Miranda: Nasci em Irajá em 31 de outubro, sou do signo de Escorpião, vim para a Portela por volta de 1947, mas já tinha desfilado aqui com meus irmãos carregando gambiarra e puxando corda, quando era bem menino ainda. Aos 15, 16 anos, fundei aqui uma ala, a Ala dos Nobres, da qual fui presidente por 10 a 15 anos. Depois eu me tornei passista, trabalhei com o falecido Ataulfo Alves, com Carlos Machado, Russo do Pandeiro, Zico Ribeiro, viajei, fui várias vezes à Europa, estive nos Estados Unidos. Mais ou menos no ano de 1953, fui diretor de harmonia e a minha ala toda foi diretora da Portela. Em 1960 me deram a vice-presidência de harmonia. Aí, começou a minha odisséia no mundo do samba. Foi quando eles achavam que eu sabia alguma coisa e eu tinha que provar isso...

Nessa época, éramos nós, os diretores, que confeccionávamos as alegorias. Era a época do papel carne seca. Tínhamos que vir aqui de noite, fazer o projeto no barro, depois cobrir com papel carne seca durante dois, três, quatro dias, uma semana ou de acordo com o tempo e depois soltar aquilo para fazer a caricatura do boneco, e isso durou longos e longos anos.

Eu já conheci, através da Portela, a rainha Elizabeth, ainda princesa. Ela esteve aqui na Portela e ofereceu-nos um jantar no Itamaraty, na década de 50.

 

Portelaweb: Tem muita gente que reclama que a Portela está há muito tempo sem ganhar o carnaval, embora seja a campeã absoluta, com 21 títulos. Então, o que o senhor acha que a Portela deve fazer para acompanhar as mudanças que estão ocorrendo?

Paulo Miranda: O pessoal de hoje não se conforma com essa ausência de campeonato e pensa que nós estamos dormindo, mas não é isso. O carnaval mudou muito. Hoje é uma apresentação de valores, antigamente o carnaval era totalmente amador; hoje não, o cara quase que desfila profissionalmente.

Antigamente, o compositor não ganhava nada. Então, o "xodó" do compositor era vir no final da escola, cantando o seu samba com as lágrimas escorrendo, por ver aquele mundo de gente cantando o samba dele. Hoje, tem sujeito que ganha a disputa do samba-enredo e nem desfila, viaja para Pernambuco, São Paulo, para aqui, para ali, para acolá. Estas mudanças todas tiraram a nobreza do carnaval. Antigamente, em uma família de dez pessoas, oito desfilavam; hoje para desfilar um tem que tirar no palitinho e todo mundo inteirar. Então, o carnaval perdeu sua identidade, sua identificação.

Eu acho que um dos fatores determinantes para essa situação foi o desfile em dois dias. Eu até acho que nós temos culpa nisso, porque eu estava lá e ajudei a elaborar o processo. Hoje há um mesmo jurado para um quesito domingo e segunda-feira. No domingo ele faz um organograma do que julgou e vai para casa. Em casa ele ouve a análise da televisão, do rádio, de vizinhos, volta com a cabeça embaralhada e acaba fazendo um julgamento comparativo, não lembra nem o que julgou ontem... Então as escolas que desfilam na segunda-feira acabam levando vantagem. Além disso, com o desfile em dois dias, até a comunidade é prejudicada, porque antes, quando o desfile era só aos domingos, a Portela desfilava em Madureira e Oswaldo Cruz na segunda- feira e, na terça-feira, em Vaz Lobo, Irajá, Rocha Miranda e Bento Ribeiro.

 

Portelaweb: Ainda sobre essa questão do desfile em dois dias, o senhor tem uma idéia para evitar um julgamento comparativo?

Paulo Miranda: Esta idéia já foi formalizada. Mas os próprios jurados acharam inconveniente. Uma escola que levou 10 no domingo mereceria 10 se desfilasse na segunda-feira. Às vezes, ele pode dar dez para uma escola e na segunda-feira vir uma escola superior e ter que dar dez para ela também Eu acho que não há inconveniente nenhum. Mas, apesar disso tudo, eu tenho um projeto em mente: determinar o primeiro, o segundo e o terceiro lugares de domingo e de segunda-feira, e estas seis escolas desfilariam novamente, sendo duas campeãs, duas vice e duas no terceiro lugar. Esta é a minha idéia.

O que acontece também é que hoje temos mais "forasteiros" desfilando nas escolas de samba do que sujeitos daqui do Rio de Janeiro. O "forasteiro" só pode chegar aqui na sexta-feira de carnaval. Há escolas com alas inteiras, três, quatro, cinco alas, que desfilam com cem pessoas: cinqüenta de São Paulo, vinte de Pernambuco, sete de Petrópolis e as outras daqui do Rio. Na Portela mesmo acontece isso.

 

Portelaweb: Existe algo que as escolas possam fazer para melhorar esse quadro? Porque esse é um problema do carnaval e não da Portela especificamente...

Paulo Miranda: Infelizmente isso já está muito enraizado. Agora tem que se dar tempo ao tempo para aparecer uma fórmula para que se possa minimizar isso. Há uns dez, quinze anos, na Mangueira só saía sujeito do morro; hoje na Mangueira sai gente dos quatro cantos do mundo.

 

Portelaweb: Poderíamos então afirmar que o carnaval está deixando de ser uma festa popular para se transformar em um grande espetáculo para famosos? E o que o senhor acha disso?

Paulo Miranda: Eu acho até difícil voltar ao que era antes, porque agora isso já tomou um corpo muito grande e você fica até sem poder tomar deliberação, porque senão você se choca com a opinião pública. Mas não é o mesmo desfile, porque existe uma coisa chamada "chão" da escola, que é justamente esta maneira de sambar, esta ginga do samba, a maneira de cantar, e a maioria das escolas perdeu esta identidade. Existe até um projeto do Anísio Abraão David, da Beija-flor, de trazer os setores 06 e 13 para mais próximo da área de desfile. As cadeiras e os camarotes ficaram muito distantes, quem está desfilando perdeu o calor humano da platéia.

 

Portelaweb: O senhor é considerado um dos maiores diretores de harmonia do mundo do samba. Após a construção da Passarela do Samba, essa função passou por grandes mudanças. Como o senhor a avalia hoje?

Paulo Miranda: Aqui na Portela acumulo duas funções no papel: a de vice-presidente e diretor de carnaval, e ainda fico nervoso na hora do desfile e acabo juntando a essas duas funções a de diretor de harmonia.

Toda escola tem uma marca na bateria, por exemplo: Portela tem 1ª, 2ª e 3ª mais salientes, mais para cima; no Império Serrano a bateria é montada em cima do agogô; no Salgueiro é em cima das peças agudas, repinique, tamborim; a Mangueira tem a pancada sem resposta, só tem 1ª e 3ª; e as outras co-irmãs batem o tradicional. Então, quando o diretor de harmonia chega na saída da escola no Sambódromo, precisaria de cinco ou seis tímpanos e não apenas dois, porque ele chama o cantor para puxar o samba-enredo, ele dá entrada na bateria, ele dá uma chegada no miolo da escola para saber se os desfilantes estão cantando nivelados ao puxador, ele dá uma chegada na bateria para saber se os desfilantes estão nivelados com a bateria, ele dá uma chegada no povão, para saber se o povão está entrosado com aquilo que o puxador está cantando, e enquanto o desfile estiver andando ele não pode deixar nem o puxador, nem o desfilante e nem tampouco o povão acelerar ou botar o samba para baixo.

É preciso gostar muito da escola, pois o camarada se transforma em um super-homem. Ele não pode ficar olhando mulher bonita, olhando fantasia ou para a televisão, ele fica totalmente dominado por aquilo. Nessa hora ele esquece de mãe, pai, filho, irmão, enteado, é uma possessão, como se um anjo se apossasse do camarada e desse a ele poderes sobrenaturais para poder conciliar todas essas coisas, porque depois que uma ala canta uma coisa e outra canta outra parte do samba-enredo, ninguém consegue consertar.

 

Portelaweb: Com o som da avenida, hoje é menos complicado do que antigamente, não é?

Paulo Miranda: Mas em compensação aquilo acaba com a harmonia. A harmonia ali é fabricada, porque é concentrada no som da caixa, enquanto o jurado tem que julgar o quesito pelo desfilante, mas não o ouve cantando...

 

Portelaweb: O senhor está na Portela desde 1947. Daria para afirmar então que a história da vida de Paulo Miranda se confunde ou se funde com a história da Portela?

Paulo Miranda: Eu sou um camarada que vem de família humilde. Eu não bebo, não fumo e cheguei à conclusão que a humildade abre qualquer porta. Eu estou estes anos todos na Portela e nunca briguei com ninguém, nunca levei um tapa de ninguém e dificilmente eu altero a voz. Todo fim de ano nós fazemos uma despedida de Natal e de Ano Novo, e eu peço desculpas aos amigos, aos desfilantes, aos diretores, se por ventura, no auge do sucesso ou no calor do desfile, eu fui indelicado. Eu acredito que a escola de samba seja a única instituição onde dançam reis, filhos de reis, imperadores, filhos de imperadores, ministros, filhos de ministros, analfabetos, desempregados, todo mundo junto nestes "400 e tal" mil metros quadrados com um só fito: dançar e cantar samba. Aqui não há preconceito de cor, religião, sabedoria, condição financeira...

 

Portelaweb: Cite um momento marcante que o senhor tenha vivido na Portela.

Paulo Miranda: Embora haja muitos, um dos momentos marcantes da minha vida foi quando eu fui chamado pelo senhor Carlos Teixeira Martins e ganhei dele a direção geral de harmonia da escola, que é de uma responsabilidade muito grande: você tem que colocar 4 mil pessoas na avenida, cantando e sambando direitinho... Um outro momento marcante foi quando ele teve um impedimento e me entregou a presidência da escola e 3 anos depois disse: "Não, o presidente ainda é você, você continua". São fatos que me deixaram emocionado. Fora isso tudo, o carinho que todo mundo aqui tem por mim. Tem meninos e meninas que eu vi de touca e hoje já têm até família formada e com o mesmo respeito e o mesmo carinho por mim.

 

Portelaweb: Nós sabemos que o senhor é uma das pessoas da confiança do Sr. Carlos Teixeira Martins. Como começou essa relação de amizade e confiança?

Paulo Miranda: Antes de vir para a escola de samba eu era dançarino de gafieira e o Carlinhos Maracanã dançava em Pavuna. Eu tinha uma ala que dava baile, a ala dos Nobres, e ele tinha a ala Nem Te Ligo. Nós vivíamos com a ala só para diversão, para dar baile, para confraternizar. O pai do Carlinhos tinha um armazém na Pavuna. Geralmente eu passava lá cedo e esperava até ele fechar o armazém e tomar banho, quando então íamos para o baile. Isso em 1947. Daí surgiu uma amizade que ficou perpetuada. Você sabe que hoje a história conta (eu gosto muito de história): quando surgiram Abel e Caim, o mundo já ficou preocupado; Brutus, que era o homem de confiança de César, foi o primeiro a cravar-lhe a faca; a própria Cleópatra, que queria ser rainha de Macedônia, entregou César Augusto aos seus algozes; João Batista teve o privilégio de lavar a cabeça de Jesus e batizá-lo no rio Jordão mas Salomé levou-o a decapitá-la. Então, hoje a pessoa tem muito cuidado em saber em quem ela pode confiar, e eu acredito que foi uma destas razões que levou o senhor Carlos Teixeira Martins a confiar na minha nobreza de caráter.

 

Portelaweb: Qual a importância da comunidade para a Portela? Há algum projeto especial para ela?

Paulo Miranda: A comunidade na Portela tem algumas reservas de domínio. As escolas que se formam no morro ou que estão numa região mais popular têm chances de ter comunidade, mas a Portela não tem morro nem favela. A comunidade da Portela é uma comunidade fidalga. Aquele cara que tem um trabalho é mais difícil de se manejar. Então, por causa disso, a Portela tem dificuldades junto à comunidade. Já estas escolas pertinho de favelas têm chances de ter comunidade, porque têm as pessoas mais carentes.

 

Portelaweb: Como está sendo a relação Portela-Amazonas?

Paulo Miranda: A melhor possível. Nosso presidente já foi três vezes a Manaus, assistiu ao Festival de Parintins, a convite do governador. Nós já estamos providenciando acomodações para eles assistirem ao carnaval, já estamos colocando-os no organograma para desfilarem. Neste meio tempo, já temos quinze pessoas de lá trabalhando no nosso barracão e que fatalmente vão trazer algum desfilante do Amazonas para nós ensaiarmos, porque lá a música é mais de toada. Nós vamos fazer um casamento do samba com a toada, a marcação é 4x2, mas dá para fazer um nivelamento dentro da toada.

 

Portelaweb: Quem são essas pessoas que estão trabalhando no barracão da Portela?

Paulo Miranda: São artistas de Parintins, quinze artistas que estão aqui fazendo um trabalho muito bonito.

 

Portelaweb: O que nós podemos esperar do desfile da Portela em 2002?

Paulo Miranda: É difícil prever, pelo seguinte: o desfile é todo em cima do samba-enredo. E tem samba-enredo que vai bem no disco, vai bem na quadra, mas no dia do desfile morre. Tem samba-enredo que vai mal na quadra, vai mal no disco e no dia do desfile acontece. E a escola de samba é mais ou menos um sonho, entendeu? Por exemplo: tem roupas que são confeccionadas em Caxias, em Cascadura, no Méier, em Vila Isabel, em Bento Ribeiro, no dia nós vamos juntar isso tudo, para dar um visual fantástico. Outra coisa são os carros alegóricos - nós temos quinze artistas de Manaus, vários artistas do Rio e de São Paulo, e cada um com uma modalidade de pensamento. E o desfilante ainda tem que "sentir" o enredo proposto pelo carnavalesco, e quem faz isso é o samba-enredo.

 

Portelaweb: Nós temos alguma surpresa preparada para o público neste carnaval?

Paulo Miranda: Temos muitas, mas infelizmente eu não vou poder contar, porque a gente prefere que as pessoas sintam o impacto no dia 12 de fevereiro de 2002.

Equipe Portelaweb: Até mesmo porque se contar deixa de ser surpresa, né?!? (risos)

 

Portelaweb: O que a Portela representa para o senhor?

Paulo Miranda: Eu respiro Portela 24 horas por dia. Eu não consigo distinguir a Portela da minha família, porque ambas são dois amores que não têm posse. Eu gostaria que todo mundo fosse Portela e que todo mundo gostasse da minha família como eu gosto.

A Portela é um amor platônico. O amor platônico não pode ter dono, todo mundo passa a amar, todo mundo passa a gostar mas não há posse. E acredito que eu seja um dos mais entusiasmados, às vezes até um entusiasmo exagerado, mas é a força do coração.

 

Portelaweb: O senhor teria algum recado para a família portelense?

Paulo Miranda: Eu sempre digo para eles o seguinte: lugar de portelense é na Rua Clara Nunes, nº 81, em Madureira. É bem melhor o cara sofrer junto do que brigar separado. Esse é o meu recado.

Entrevista exclusiva, concedida a  Lúcia Pinto e Fábio Pavão na quadra da escola em 26/08/2001