EM DEFESA DO SUBÚRBIO

 1940 Madureira

Estação de Madureira na década de 40 (Foto: Estrada de Ferro Central do Brasil)

 

 

Quando Paulo chegou a Oswaldo Cruz, no início da década de 20, o bairro não era mais que um humilde povoado às margens do Rio das Pedras. As ruas empoeiradas, com as valas correndo a céu aberto, eram o cenário hostil que todos encontravam. Paulo tinha aproximadamente 20 anos quando mudou-se para o subúrbio, vindo da Saúde, região próxima ao centro da cidade.

As dificuldades comuns eram superadas com união. Os laços de amizade ajudavam a enfrentar a dor, e do sofrimento brotaram canções. Em Oswaldo Cruz encontrávamos a junção das lendas e tradições do campo com os costumes da cidade, e dessa fusão surgem as peculiaridades da produção cultural local.

A Portela nasce como catalisador desse caldeirão cultural que fervilhava no bairro. Em suas raízes, mesclam-se as culturas rural e urbana, e desse híbrido temos a definição das primeiras características da grande escola.

Paulo traz consigo os traços da cultura urbana, dos costumes e tradições das regiões periféricas do centro do Rio, onde a população negra formava a "Pequena África". Em Oswaldo Cruz, percebe a riqueza do processo que estava ocorrendo naquela localidade, tornando-se seu principal líder, um dos maiores defensores do subúrbio.

O estreitamento dos laços sociais era a arma para enfrentar as dificuldades; a união e a amizade, formas de ludibriar os problemas. Organizados por Paulo, os primeiros moradores de Oswaldo Cruz superaram as dificuldades iniciais e o progresso vai a reboque da vizinha Madureira.

Paulo jamais abandonaria seu bairro. Seu nome artístico, Paulo da Portela, não é uma referência à escola, e sim à principal estrada do bairro onde Paulo morou quando chegou a Oswaldo Cruz. A escola só apareceu mais tarde, numa referência à mesma estrada.

As valas e as ruas de barro aos poucos foram desaparecendo da paisagem, mas Oswaldo Cruz jamais perderia seu típico ar suburbano. Paulo foi uma espécie de "embaixador" desse pedacinho de terra, recebendo com dignidade e elegância visitantes ilustres de diversas partes do mundo.

Mesmo sendo uma das figuras mais conhecidas da vida carioca dos anos 30 e 40, Paulo jamais conseguiu converter essa popularidade em dinheiro. Viveu até seus últimos dias numa pequena casa de vila na Rua Carolina Machado, próximo à estação do bairro que o acolheu de braços abertos.

Hoje, mais de 50 anos após sua morte, o nome de Paulo da Portela ainda permanece muito forte na região. Iniciativas comunitárias surgem inspiradas nos ensinamentos do velho professor. É o caso do Centro de Capacitação Profissional Paulo da Portela, na Rua Cananéia, criado por iniciativa da Associação dos Moradores de Oswaldo Cruz, em que se desenvolvem projetos de pré-vestibular para pessoas carentes, alfabetização para adultos e cursos profissionalizantes, valorizando a cultura negra e preservando a riqueza cultural do bairro.

E a riqueza cultural se mantém também inspirada nos exemplos de mestre Paulo, tanto nos trabalhos de antigos amigos, como a velha guarda da Portela, quanto no sucesso de jovens que jamais o conheceram mas fazem questão de seguir seus ensinamentos, como Marquinhos de Oswaldo Cruz.