O PRIMEIRO CONCURSO DE SAMBA

 

 

1928


 

Na década de 20, a principal atração do carnaval carioca eram os desfiles das grandes sociedades e dos ranchos. A apresentação desses grupos, que ocorria na segunda-feira e na terça-feira de carnaval, atraía grande número de foliões para a Av. Rio Branco, no Centro. No sábado e no domingo, o corso, os cordões e os blocos familiares tomavam conta das ruas.

Foi nesse panorama que Zé Espinguela (apelido de José Gomes da Costa) ou Zé Spinelli resolveu reunir grupos de sambistas para realizar uma disputa em torno do samba. Até 2016, os historiadores das escolas de samba acreditavam que esse concurso havia ocorrido em 1929. Contudo, através de pesquisa que realizei em cerca de 80 diários e revistas do período, descobri notas publicadas comprovando que o certame foi realizado em janeiro de 1928. Publiquei pela primeira vez esta descoberta no site Portela Cultural, em 2016, na coluna "Portela de Tempos atrás".

Até as notas dos jornais serem descobertas, a história que líamos era que o samba cantado por Heitor dos Prazeres naquele concurso, defendendo o agrupamento azul e branco, teria dado o título à agremiação e levado o compositor a convencer Paulo da Portela a trocar o nome do grupo de Conjunto Carnavalesco Oswaldo Cruz para Quem nos Faz é o Capricho. Contudo, como provam as publicações da época, o concurso foi vencido pela Embaixada do Estácio. Assim sendo, o samba de Heitor não poderia ter levado Paulo a mudar o nome do Conjunto, uma vez que Heitor não obteve vitória nenhuma no concurso.

 

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Edição de 4 de fevereiro de 1928 de "O Imparcial", citando o primeiro concurso de samba organizado por Zé Spinelli ou Zé Espinguela.

 

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José Gomes da Costa ou Zé Espinguela ou José Spinelli (esq.) e Heitor dos Prazeres

 

Mas qual argumentação teria usado Heitor dos Prazeres para convencer Paulo da Portela a mudar o nome do grupo?

A hipótese que defendo está relacionada ao único fato relevante envolvendo Heitor dos Prazeres no início do ano de 1928 e que também coincide com a data de 20 de janeiro: um anúncio publicado naquela dia pela “Casa Vieira Machado”, que oferecia aos consumidores partituras e letras de sambas, marcinhas e maxixes. O anúncio publicado traz o título de obras e o nome dos compositores, cujas partituras e letras estavam sendo vendidas em forma de catálogo pela “Casa Vieira Machado”, com sede na Rua do Ouvidor 179, local nobre na época. Entre as composições aparecem dois sambas de Heitor dos Prazeres: “Eu gosto de carnaval” e “Ya-yá do Bonfim”.

Os compositores que tinham suas obras publicadas por aquela editora, via de regra, acabavam sendo convidados por gravadoras como a Odeon, a Parlaphon, a Casa Edison ou a Columbia, para terem suas composições imortalizadas nos famosos long-plays de vinil, como acabou acontecendo com Heitor dos Prazeres. Assim, naquele 20 de janeiro de 1928, data da publicação do anúncio e também data do primeiro concurso de samba, o que teria levado Paulo da Portela a mundar o nome da agremiação pode ter sido o sucesso de Heitor dos Prazeres, que teve composições suas publicadas e vendidas ao lado de obras de grandes sambistas consagrados da época, como Pixinguinha, Donga, Sinhô e Caninha.

 

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Anúncio da "Casa Vieira Machado" com sambas de Heitor dos Prazeres publicado em 20 de janeiro de 1928

 

Dessa forma temos quatro grandes novidades reveledas para a historiografia do samba e para a história do GRES Portela:

- o concurso não aconteceu em 1929, mas em 1928;

- o nome do agrupamento teria mudado em 1928 e não em 1929;

- a vitória no concurso não foi motivo para a mudança do nome do agrupamento;

- o motivo pode ter sido a publicação de sambas de Heitor dos Prazeres ao lado de grandes sambistas.

Importante ressaltar que o concurso realizado em 20 de janeiro de 1928 não teve nenhuma relação com os desfiles de carnaval, que naquele ano foi comemorado entre os dias 18 e 21 de fevereiro.

Dias após o resultado, a vitória da Embaixada do Estácio foi comemorada pelos sambistas como está descirto nos dois recortes de jornais abaixo datados de 9 e 11 de fevereiro de 1928. Participaram desta festa Paulo da Portela, Bide e Baiaco. O samba executado pela Embaixada do Estácio e que venceu o concurso se chama "Quem eu deixar não quero mais", composto por Edgar Marcelino dos Passos, o Mano Edgar.

Já o Conjunto Carnavalesco Oswaldo Cruz, segundo as autoras do livro "Paulo da Portela: traço de união entre duas raças" (Funarte, 1980), teria se apresentado com dois sambas: um de Heitor dos Prazeres e outro de Antonio Caetano, cujas letras estão descritas na página 55 da obra. O samba de Heitor dos Prazeres não tem seu título registrado. O de Antonio Caetano se chamava "O Sabiá". No livro "Escola de Samba, a árvore que esqueceu a raiz" (Lidador/SEEC-RJ, 1978), Candeia e Isnard afirmam que o samba de Heitor dos Prazeres se chamava "A Tristeza me Persegue". Este samba foi gravado pela Velha Guarda da Portela no LP, "Portela Passado Glórias" (1970). Contudo, a letra publicada na biografia de Paulo da Portela e letra cantada pela Velha Guarda não são as mesmas. Temos aí outro mistério a ser revelado.

 

 

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Edição de 9 de fevereiro de 1928 do jornal "A Noite" divulgando a comemoração do resultado do primeiro concurso de samba

 

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Diário "A Manhã" também reporta a comemoração do primeiro concurso de samba. Edição de 11 de fevereiro de 1928

 

 

Dia dos Blocos

 

São poucas as notícias publicadas envolvendo os blocos e, menos ainda, as relativas ao que seria o então embrião portelense.

A falta de informações sobre o Conjunto Carnavalesco Oswaldo Cruz e o Quem nos Faz é o Carpicho tem como explicação o fato de que somente aqueles blocos com sede, salão ou patrocinado por clubes dançantes conseguiam espaço na imprensa. Espaço esse muitas vezes pago ou trocado por favores aos jornais e jornalistas, a fim de que eles publicassem as atividades a ocorrer ou ocorridas dentro ou fora do salão. Nos jornais da época é comum lermos que o grupo tal faria ou não "carnaval externo". Essa expressão significava que aquele clube-sede, salão ou clube-dançante, reuniria seus frequentadores para, unidos, comemorar o carnaval fora do salão, ou seja, do lado externo, nas ruas.

 

O Conjunto Carnavalesco Oswaldo Cruz e o Quem nos Faz é o Capricho eram agrupamentos que não possuíam sede ou patrocínio empresarial. Atuavam por iniciativa de amigos ou comunidades. Daí a falta de citações na imprensa da época.

 

Já os blocos que contavam com algum apoio, disputaram o carnaval de 1928 em concurso realizado pelo jornal “A Manhã”, que designou o cronista K. Noa para cuidar dos preparativos, da realização e da cobertura. K. Noa era o "nome de guerra" do jornalista Antonio Joaquim Veloso Júnior. Depois de falecido K. Noa viria a ganhar uma rua com seu apelido no bairro de Realengo. O cronista e jornalista criou uma coluna no jornal chamada "Zig-Zig-Bum", onde relatava os preparativos para o desfile e descrevia os enredos das agremiações participantes.

 

O certame ficou conhecido com o Dia dos Blocos e foi realizado no dia 12 de fevereiro, na Avenida Rio Branco, das 19h às 1h. Se inscreveram 17 blocos, das quais 10 disputaram os premios: "Feira Livre", "Língua do Povo", "Caçadores de Veado", "Carlito Mendingo", "O Nome são Vocês que Dão", "Eu sozinho", "Respeita as Caras", "O Nome é Outro", "Não Posso me Amofinar" e "Infantil das Pererecas". O desfile terminou às 2h30 de segunda-feira, dia 13, e o campeão foi o bloco "Caçadores de Veado".

 

Contudo, devido o resultado dos desfiles, o cronista K. Noa sofreu atentado com arma de fogo. Conseguiu escapar e o caso foi publicado pela imprensa. No dia 25, reunião entre os diretores dos blocos participantes mudou o resultado do concurso dando a vitória para o "Língua do Povo", sob protestos da direção do jornal "A Manhã". O bloco "Caçadores de Veado" se recusou a participar da reunião. Esta foi a terceira edição do Dia dos Blocos. A primeira havia sido criada por K. Noa em 1926, com o objetivo de vender jornais na entresafra dos campeonatos de futebol.

 

Mesmo não tendo grande repercussão para a vida carnavalesca da época, o primeiro concurso de samba realizado por Zé Espinguela é considerado um marco na história das escolas de samba. A iniciativa do criador do concurso viria a incentivar um novo tipo de samba que começava a surgir naquele período. É esta história, com foco no GRES Portela, que pretendemos contar aqui em "Outros Carnavais".

 

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Caricatura de K. Noa, o inventor do Dia dos Blocos, publicado pelo jornal "A Manhã", onde trabalhava. Edição de 28 de fevereiro de 1928.

 

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Coluna "Zig-Zig-Bum" de K. Noa, edição de 14 de fevereiro de 1928, publicado por "A Manhã", trazendo a descrição e o resultado dos desfiles do Dia dos Blocos, ocorrido dois dias antes.

 

 

Pesquisa e texto: Marcello Sudoh
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