SEM ENREDO

 

1929

 

O carnaval de 1929 tomou as ruas de todo país entre os dias 9 e 12 de fevereiro. No dia 11, ocorreu o famoso Dia dos Ranchos, evento que reunia as mais famosas agremiações carnavalescas da época. O regulamento e os enredos foram publicados por vários jornais. O título ficou com o “Caprichosos da Estopa”.

Já o desfile das grandes sociedades, único evento que recebia subvenção da prefeitura do Rio de Janeiro, foi marcado para o dia 12, na chamada "terça-feira gorda" e ocorreu sem surpresas. O “Fenianos” levou o campeonato.

 

Diferente do publicado pela atual historiografia das escolas de samba, o primeiro concurso de samba organizado por Zé Espinguela não aconteceu em 1929. Não havia em nenhum dos 80 jornais e revistas pesquisados qualquer registro daquele certame. Conforme publicamos neste link, tendo como provas recortes de jornais da época, aquele primeiro concurso de samba ocorreu, na verdade, em 1928.

Nos mesmos jornais e revistas publicados não há nenhuma nota relacionada ao Conjunto Carnavalesco Oswaldo Cruz ou o Quem nos Faz é o Capricho. O que sabemos sobre o que viria ser o GRES Portela e que está publicado pela historiografia, na verdade, ocorreu em 1928. Portanto não há informações sobre 1929 envolvendo a agremiação azul e branca.

 

 

Eventos realizados por blocos

 

Num período histórico em que ainda não existiam as escolas de samba, os sambistas se reuniam e cantavam suas composições nos chamados blocos. Em meio aos pequenos desfiles e concursos realizados se destacavam dois eventos envolvendo os blocos, que eram patrocinados pelos jornais interessados em vender suas edições. O Dia dos Blocos Suburbanos de 1929 foi patrocinado por “O Jornal”, que encarregou Mario Graça, um de seus jornalistas, mais conhecido como “Rojão”, para administrar e reportar o evento. Já o Dia dos Blocos foi realizado por "A Manhã". O cronista responsável pela organização foi K. Noa.

 

Dia dos Blocos Suburbanos

 

Mario Graça havia criado, em 1926, o Dia dos Ranchos de Copacabana, que obteve grande sucesso na época. Segundo o jornal "O Imparcial" de 10 de janeiro de 1929, "Rojão" teve a ajuda de outro diário, o "Beira-Mar" para botar os ranchos na rua. A festa "revolucionou o mundo elegante do bairro chic" de Copacabana, publicou aquele periódico.

“O Jornal” de 19 janeiro de 1929 publicou edição com o Regulamento do Dia dos Blocos Suburbanos. Foram escolhidos para a comissão julgadora um músico, um perito em indumentária, um membro da Escola de Belas Artes, um membro da União Comercial Suburbana, um membro da Sociedade Comercial Suburbana e três jornalistas.

A data do desfile, marcada para o dia 2 de fevereiro, foi transferida duas vezes devido às fortes chuvas que caíram sobre a capital brasileira. Finalmente, a disputa ocorreu entre às 20h do dia 9 de fevereiro e às 3h20 do dia 10 de fevereiro, no Méier.

Além de "O Jornal", patrocinador do certame, outros periódicos também publicaram notas sobre os desfiles. As agremiações teriam de evoluir e cantar sambas ou marchas em frente à cabine da comissão julgadora.

Apesar da existência de inúmeros blocos no subúrbio carioca apenas cinco deles participaram da disputa: “Você me Acaba”, “Destemidos da Caverna”, “Bloco dos Independentes”, “União Faz a Força” e “Não Posso me Amofinar”. Não há qualquer referência de que o Conjunto Carnavalesco Oswaldo Cruz ou bloco Quem nos Faz é o Capricho tenha participado dos desfiles.

A apuração do Dia dos Blocos Suburbanos ocorreu no dia 10 de fevereiro às 20h sendo campeão o bloco “Não Posso me Amofinar”, com o enredo “Apogeu da Primavera”.

No dia 11 os jornais publicaram o resultado, com a pontuação de cada bloco e a descrição dos desfiles. Interessante constatar que alguns blocos desfilaram com cavalos e carro alegórico. As notas sobre o ocorrido ocuparam pouco espaço nos jornais, se comparadas as notícias relacionadads às grandes sociedades e aos ranchos. Mas era o suficiente para que essas agremiações apresentassem seus desfiles como opção de diversão no carnaval.

Como a realização do Dia dos Blocos Suburbanos trouxe um bom resultado, “O Jornal” estendeu ao período pós-carnavelesco um concurso de sambas publicando cédula de votação para os leitores participarem. O samba “Vou à Penha”, de Ary Barroso, foi anunciado vencedor na edição de 2 de abril. Na lista de compositores inscritos não aparece nenhum de Oswaldo Cruz.

 

1929 2 13 OJornalBlocos

"O Jornal", patrocinador do Dia dos Blocos Suburbanos, publica fotos dos blocos no dia 13 de fevereiro de 1929

 

1929 2 12 OJonrlaResultado

Edição de 12 de fevereiro de 1929 de "O Jornal" anuncia o resultado do certame

 

Dia dos Blocos

 

Foi a quarta vez que o jornal "A Manhã" realizava o Dia dos Blocos. A primeira edição havia ocorrido em 1926. O cronista responsável pelo evento e pela cobertura dos desfiles foi K. Noa, "nome de guerra" do jornalista Antonio Joaquim Veloso Júnior.

A comissão organizadora se reuniu dia 20 de janeiro, aniversário da cidade do Rio de Janeiro, na sede daquele diário, definindo o dia dos desfiles para 3 de fevereiro, das 19h de domingo à 1h da madrugada de segunda-feira, na Avenida Rio Branco, local de maior destaque se comparado ao concurso patrocinado por "O Jornal". Se inscreveram os blocos "Língua do Povo", "Galho do Abacate", "Infantil das Pererecas", "Não Posso me Amofinar", "Innocentes de Botafogo", "Eu Sozinho", "Feira Livre", "Destemidos da Caverna", "União Faz a Força", "Nossa Vida é um Segredo", "Boa Bôca", "Voce me Acaba", "Boi da Fuzarca", "O Nome São Vocês que Dão", "Tomara que Chova" e "O Nome é Outro", número bem maior que as agremiações inscritas no outro concurso.

O júri foi composto por membros do Conselho e da Escola de Belas Artes, além de um escultor de préstitos e um desenhista. O quesito avaliado foi Conjunto, que classificaram o campeão e o vice-campeão, e prêmios para melhor Harmonia, Evolução, Enredo, Humorismo, Originalidade e Estandarte. O título dos enredos e o desenvolvimento dos mesmos em setores foram publicados pelo diário patrocinador. Durante o desfile, os blocos tinham como obrigatoriedade se apresentar com um samba ou marcha frente à cabine da comissão julgadora.

O Dia dos Blocos foi vencido pelo "Língua do Povo", que se apresentou com o enredo "O Thesouro de Attila", com destaque para a comissão de frente montada à cavalo. Os detalhes do certame foram publicados por "A Manhã" na edição do dia 5 de fevereiro, ilustrada com fotos. Três agremiações acabaram não desfilando. Infelizmente, devido a qualidade do exemplar, as imagens não estão com boa definição.

Diferente de outras publicações da época, "A Manhã" deu espaço igual aos blocos, grandes sociedades e ranchos, revelando a importância das pequenas agremiações para o carnaval carioca. Das publicações consultadas as melhores fotos dos blocos foram publicadas pelas revistas "O Cruzeiro" e "Revista da Semana". Nelas é possível ver, em boa definição, uma foto panorâmica de cada grupo participante (veja abaixo).

 

1929 2 5 AManha

Edição de 5 de fevereiro de 1929 do jornal "A Manhã", com a descrição do desfile

 

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A "Revista da Semana" de 9 de fevereiro de 1929. Todos os blocos participantes

 

 

"Conjunto do Oswaldo"?

 

Em Madureira, a imprensa deu destaque para o rancho Democráticos de Madureira, que realizou eventos em sua quadra, desfile nas ruas e batalha de confete. Também não há registros de que esses eventos tiveram a participação de então membros do atual GRES Portela.

Contudo chamou-nos a atenção uma nota publicada pelo "Jornal do Brasil" em 2 de fevereiro de 1929, ou seja, em meio aos folgedos que abriram o carnaval daquele ano. O título da nota é "Borboletas Vaidosas":

 

 

Em sua sede, à Rua Eulina, 73, no Meyer, o rancho Borboletas Vaidosas realizará magnífico baile a fantasia, abrilhantado pelo conjunto do Oswaldo. A diretoria já entrou em preparativos do baile do dia 9 do corrente.

 

O "conjunto do Oswaldo" descrito na nota se trata do Conjunto Oswaldo Trombone, muito famoso na época, que animava bailes e festas (veja abaixo).

 

1929 2 2 JB COswaldo

O conjunto do Oswaldo (Jornal do Brasil, 2/2/1929)

 

As "escolas" fora dos concursos

 

O leitor deve estar se perguntando por que os agrupamentos carnavalescos de Oswaldo Cruz, Mangueira e Estácio - que ainda não eram escolas de samba, mas blocos -, não participavam dos certames dedicados a esse tipo organização carnavalesca. Minha tese é de que esses concursos, que permitiam uma maior exposição das atividades dos blocos, atraindo participantes e renda, exigiam alguma forma de troca para que os jornais pudessem aceitá-los como participantes. Como argumentei no texto relativo ao Carnaval de 1928, os blocos que conseguiam participar desse concursos possuíam patrocinador ou sede própria (clubes dançantes cujos frequentadores organizavam um bloco para desfilar nas ruas). Já as três futuras escolas de samba acima citadas não possuíam poder de barganha para atrair a imprensa, ocupadas com as grandes sociedades, os ranchos, os corsos, as batalhas de confete e os bailes nos clubes. Assim, esses agrupamentos, que também não possuíam componentes com poder aquisitivo para consumir publicação jornalística, passavam "despercebidos" aos olhos da imprensa carnavalesca.

 

 

 

Pesquisa e texto: Marcello Sudoh
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