SEM ENREDO

 

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Em jornais e revistas do ano de 1930 não há registros sobre o então bloco Quem nos Faz é o Capricho ou Vae Como Pode.  O que conseguimos levantar e expomos a seguir sobre o carnaval daquele ano é um resumo do que foi encontrado nas páginas de publicações do período. São extensas reportagens sobre os desfiles de ranchos, das grandes sociedades e dos bailes de confete. Os preparativos para o desfile de ranchos e o próprio desfile ocuparam várias páginas em quase todos os jornais. Sobrava pouco espaço para as outras agremiações carnavalescas.

 

Contudo, em algumas notas, encontramos informações de que ocorriam desfiles de blocos e de que na região e Madureira e Oswaldo Cruz existiam três deles. O mais citado nos jornais era o “Voce Me Acaba”. Os outros dois eram o “Inocentes de Madureira” e o “Furiosos de Madureira”. Todos desfilavam numa região que ia do Méier à Madureira.

Esses blocos desfilavam sem muita organização e, em 1930, se apresentaram em três diferentes desfiles realizados no subúrbio carioca.

O “Dia dos Blocos”, assim chamado pelos jornais, ocorreu em 20 de fevereiro, na quinta-feira pré-caranavalesca e foi patrocinado pelo jornal “A Manhã”. O cortejo de 27 agremiações pode ser visto na Avenida 13 de Maio e o vencedor foi o “Bloco Língua do Povo”, o mesmo que havia vencido o “Concurso de Blocos” também patrocinado pelo mesmo jornal, em 1929. Há razoável quantidade de informações sobre o agrupamento vencedor nas publicações da época, mas nada que esteja relacionado à Portela. Segundo essas publicações, a sede deste bloco ficava em Santo Cristo.

Já no dia 22 de fevereiro, sábado de carnaval, foi realizado o “Dia dos Blocos Suburbanos”. O evento ocorreu no Jardim do Meyer, na Rua Aristides Cairé, patrocinado pela segunda vez por “O Jornal”. O “Bloco Você me Acaba”, de Madureira, ficou com o título de campeão (veja foto abaixo).

 

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"O Jornal", de 25 de fevereiro de 1930, anuncia o resultado do desfile dos blocos

 

Outra famosa publicação carioca, o “Jornal do Brasil”, patrocinou mais um “Dia dos Blocos”. O desfile ocupou a Praça Mauá, na terça-feira de Carnaval, dia 24, onde o “Bloco Língua do Povo” venceu mais uma vez. Curiosamente não foi possível encontrar nas páginas do jornal patrocinador mais detalhes sobre este certame carnavalesco. Porém, os jornais concorrentes fizeram cobertura completa, publicando inclusive detalhes sobre algumas agremiações participantes. Na lista de blocos desfilantes dos três eventos não há sequer nome parecido com Quem nos Faz é o Capricho ou Vae Como Pode.

Cabe lembrar que, naquele ano, ocorreu a “Revolução de 1930”, movimento armado que impediu a posse do presidente eleito Julio Prestes e que levou Getúlio Vargas ao poder, pondo fim à “República Velha”. A revolta aconteceu em outubro e consumiu várias reportagens e artigos. Pesquisamos em todas as edições algum fato ou evento que nos levasse às agremiações que precederam a Portela. Não foi possível encontrar nada.

Contudo, segundo Oscar Bigode e Ernani Rosário, em depoimento para o livro "Paulo da Portela: traço de união entre duas culturas" (Funarte, 1980), a agremiação ainda se chamava Quem nos Faz é o Capricho. Na página 61, os dois descrevem como foi o cortejo da escola e o famoso desentendimento envolvendo Paulo da Portela e Manoel Bam Bam Bam. Não há na obra o título do enredo ou o samba cantado, já que naquele período não existia este tipo de obrigação. No entanto para Candeia e Isnard, conforme publicado no livro "Escola de samba, a árvore que esqueceu a raiz" (Lidador/SEEC-RJ, 1978), o agrupamento já se chamava Vae Como Pode

Oscar Bigode e Ernani Rosário descrevem o Quem nos Faz é o Capricho em desfile informal rumo à Praça Onze, com comissão de frente, baianas, alas, caramanchão e bateria. Oscar Bigode ou Oscar Pereira de Souza nasceu em Salvador, na Bahia, no dia 24 de agosto de 1924. No carnaval de 1930, teria cinco anos de idade. Já Ernani Rosário é de 1916. Portanto, na data do desfile, teria 13 ou 14 anos de idade.

Ainda nos anos 30, a agremiação carnavalesca de Oswaldo Cruz receberia seu nome definitivo e cresceria em organização adquirindo experiência para alcançar as dezenas de vitórias que iria escrever na história do carnaval. Vamos à elas!

 

 

 

 

 

Pesquisa e texto: Marcello Sudoh
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