SUA MAJESTADE O SAMBA

 

1932

 

O carnaval de 1932 caiu no início de fevereiro. As escolas de samba, ainda pequenas agremiações se comparadas aos ranchos e grandes sociedades, tiveram seu concurso patrocinado pelo jornal “O Mundo Esportivo”. O certame foi sugestão do jornalista Carlos Pimentel. Uma forma de vender o jornal no período de intervalo entre os campeonatos de futebol.

 

Segundo publicação do jornal “A Batalha” de 7 de fevereiro, o concurso reuniria naquele domingo, 20 agremiações na Praça Onze, onde seriam julgadas por comissão formada por José Lyra, Raimundo Magalhães Jr., Fernando Alves da Costa e pelo cronista Orestes Barbosa. Diferente do publicado por historiadores do período, os jurados Álvaro Moreyra, Luiz Peixoto e Armando Reis não fizeram parte da bancada (veja nota abaixo publicada por “A Batalha” de 12 de fevereiro de 1932). Os Quesitos julgados foram Harmonia, Enredo, Bateria e Samba.

 

1932 2 12 Desfile ABatalha

Jornal "A Batalha" de 12 de fevereiro de 1932

 

O desfile

 

O desfile ocorreu entre às 20h e às 3h da manhã de segunda-feira. Os jornais anunciaram a participação do Conjunto Carnavalesco Oswaldo Cruz (na verdade Vae Como Pode), Para o Ano Sae Melhor, Segunda Linha do Estácio, Unidos da Tijuca e Mangueira, dentre outras agremiações.

 

O título ficou com a Mangueira, que apresentou o samba “Sorrindo”, composto por Zé Com Fome. Foi a primeira vitória na história da “verde e rosa”. Em segundo, empatados, Vae Como Pode e Para o Ano Sae Melhor. Em quarto, Unidos da Tijuca.

 

Na edição de 9 de janeiro, o jornal “A Batalha” descreveu o desfile como “batuque infernal de cuícas, pandeiros, tan-tans e tamborins”, apontando os principais instrumentos das baterias daquele período. Os jornais criticaram o policiamento que teria sido “bastante confuso”.

 

O Vae Com Pode desfilou com 200 componentes, apresentando o enredo “Sua Majestade o Samba”. No livro “Escola de Samba, a árvore que esqueceu a raiz” (Lidader-SEEC/RJ, 1978) e “Paulo da Portela, traço de união entre duas culturas” (Funarte, 1980), os autores afirmam que o enredo naquele ano teria sido elaborado por Antonio Caetano. Porém, quanto ao título do enredo, as informações contidas nas duas obras acima citadas não são confirmadas pelas publicações da época. O jornal “A Noite”, de 10 de fevereiro, publicado três dias depois do desfile na Praça Onze, traz nota com o título do enredo: “Sua Majestade o Samba” (veja foto).

 

1932 2 10 Portela ANoite

Jornal "A Noite" de 10 de fevereiro de 1932

 

Ainda conforme a obra biográfica de Paulo da Portela acima citada, teria sido a primeira vez que uma escola de samba apresentou alegoria relacionada ao enredo. Na ocasião, Eurico, componente da Portela, vestiu uma barrica onde seu corpo era formado de instrumentos musicais. Os sambas apresentados teriam sido "Ando Penando", de Alcides Dias Lopes, "Ouço uma Voz", de Nelson Amorim, e "Lá vem Ela" (na verdade "Dinheiro não há"), de Ernani Alvarenga.

 

Passado o carnaval, o jornal “A Noite”, de 10 de janeiro, anuncia novo desfile da Vae Como Pode. A nota cita como diretores da escola de Oswaldo Cruz, Paulo da Portela, Antonio Caetano, Antonio Rufino, Manuel Gonçalves (Manuel Bam Bam Bam) e Antonio Valentim. No entanto, não diz onde seria a apresentação.

 

Como não havia grande interesse da imprensa em noticiar o desfile das agremicações de samba, poucas notas foram publicadas sobre o certame. A cobertura jornalística se concentrava nos ranchos e nas grandes sociedades. Mas os anos 30 ainda veriam o crescimento das escolas de samba, que se tornaram protagonista de um projeto nacionalista de construção da identidade brasileira.

 

 

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Foto do jornal "A Noite" de 13 de fevereiro de 1932: Portela concentrada

 

 

 

 

Pesquisa e texto: Marcello Sudoh
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