"O SAMBA DOMINANDO O MUNDO"

 

1935 

 

O ano de 1935 começava com uma grande novidade: a oficialização dos desfiles, com a coordenação da União das Escolas de Samba (UES), que reunia 72 agremiações filiadas.

Essa foi indiscutivelmente uma grande vitória para os sambistas, que poderiam, a partir de então, contar com uma subvenção regular da prefeitura. Claro, era apenas o início. O que as escolas de samba ganhavam era infinitamente inferior à subvenção disponível para os ranchos e as grandes sociedades, instituições tradicionais que estavam no auge da popularidade.

Uma semana antes do desfile oficial, o jornal "A Noite" promoveu um desfile de escolas de samba, durante a "Feira de Amostras". O evento ocorreu no dia 24 de fevereiro. O Vae Como Pode realizou destacada apresesentação, sendo alvo de elogios daquele diário. Assim, a agremiação de Oswaldo Cruz mostrava que chegaria com força na Praça Onze para o desfile oficial.

A boa participação portelense havia provado que o mundo do samba via o desfile daquele ano como um evento especial, e os enredos, de maneira geral, exaltaram o samba e a vitória que tinham acabado de conseguir. O Vae Como Pode, sob o comando de Armando Passos, apresentou o enredo "O samba dominando o mundo", título que muitos consideram uma espécie de profecia.

Apesar dos avanços conseguidos, a pretensão das escolas de realizar seus desfiles na Av. Rio Branco, palco principal do carnaval carioca, foi descartada pelas autoridades, uma vez que os ranchos, as grandes sociedades e os corsos já ocupavam a avenida durante os dias de folia.

 

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Edição do jornal "A Noite", de 25 de fevereiro de 1935, comenta a participação da "Escola de Portela", durante a festa de chegada do Rei Momo. O desfile ocorreu na Rio Branco

 

Na imprensa

O certame foi patrocinado pelo jornal "A Nação", mas amplamente anunciado por vários jornais da época, com destaque para o "Diário Carioca" de 3 de março de 1935, que além de estampar um belo desenho de um desfile na capa daquela edição de domingo, do cartunista Queiróz, publicou o regulamento da UES, os prêmios e o nome das agremiações desfilantes.

Segundo a reportagem aquela seria a última vez que o evento ocorreria na Praça Onze. As escolas teriam 13 minutos para a apresentação em frente ao coreto da comissão julgadora, armado na entrada da Escola Benjamin Constant. Os quesitos julgados foram Originalidade, Harmonia, Bateria, Bandeira e Letra dos Versos. O campeão levaria como prêmio 1 conto de réis, o segundo e o terceiro lugares 500 mil réis e o quarto e o quinto lugares, 250 mil réis. Participaram as escolas (obedecendo a ordem publicada e a grafia original) Fica Firme, União Barão da Gamboa, Vizinha Faladeira (da Saúde), Azul e Branco (do Salgueiro), Depois Eu Digo, Unidos do Salgueiro, Unidos do Tuyuty, União do Uruguay, Depois Te Explico, Estação Primeira, Sem Amor Não Se Vive, Vae Como Pode, Na Hora É Que Se Vê, Cada Anno Sae Melhor (do São Carlos), Lyra do Amor (de Bento Ribeiro), Rainhas das Pretas, Corações Unidos, Paz e Amor (de Bento Ribeiro), Prazer da Serrinha, União de Madureira, Deixa Malhar, Última Hora (do Morro da Favella), Paraízo do Sertão e Unidos da Tijuca (da Casa Branca).

 

O desfile

Mais do que nunca, a esperança tomou conta de todos os sambistas do Vae Como Pode. A alegoria que representava um globo terrestre giratório com uma baiana em cima, considerada por muitos a primeira alegoria propriamente dita de uma escola de samba, foi idealizada por Antônio Caetano, Candinho, Juca, Lino Manoel dos Reis e Arlindo Costa, a afinada equipe de barracão.

E a esperança, no início apenas um sonho, foi se tornando realidade. Os sambas apresentados foram "Alegria tu terás", de Antônio Caetano, e "Guanabara", de Paulo da Portela. O público que lotava a Praça Onze mais uma vez pôde assistir ao show de Claudionor Marcelino, o maior passista de todos os tempos, e aplaudir os primeiros rodopios de Dolores Alves, a Dodô, eterna porta-bandeira da Portela. Das 24 escolas inscritas apenas a União de Madureira não desfilou.

 

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"Diário Carioca" de 7 de março anuncia a vitória da "Vae Como Pode" no Carnaval de 1935

 

Resultado publicado

O resultado foi publicado na terça-feira, 5 de março, e com novos detalhes na edição de 7 de março (foto), ambos pelo "Diário Carioca", anunciando o bloco de Oswaldo Cruz como a agremiação vencedora do concurso, com 158 pontos, 10 à frente da Estação Primeira (Mangueira). Em terceiro ficou a Unidos da Tijuca, em quarto a Vizinha Faladeira e em quinto a Lyra do Amor. Assinaram a Ata de Julgamento Ismael Silva, Reynaldo Barbosa, Nicornélio Baptista (UES), B. Luz e Zé Espinguela.

O Vae Como Pode comemorou com um delicioso angu à baiana no dia 10 de março, conforme publicado pela "Gazeta de Notícias". A entrega do prêmio estava prevista para o dia 30 de março e seria realizada com uma grande festa. Mas, devido ao protesto de alguns derrotados, o pessoal da Portela recebeu o prêmio apenas no dia 4 de abril, sem festa. Este foi o último desfile que a agremiação de Oswaldo Cruz se apresentou com o nome de Vae Como Pode. A partir do Carnaval de 1936, o nome GRES Portela briharia na história do samba.

 

Outros acontecimentos

 

A vitória naquele primeiro concurso oficial chamou a atenção para a agremiação comandada por Paulo, Caetano e Rufino. No dia 13 de novembro, a Portela recebeu o "Jornal do Brasil Futebol Club", na Estação de Madureira. A equipe havia marcado um jogo contra o time da casa, regado a comes e bebes. O diário queria uma aproximação com o grupo, que vinha cresendo em importância. A partida terminou com o placar de 3 a 1 para Oswaldo Cruz e surgiu ali uma amizade entre os jornalistas do "Jornal do Brasil" e a Escola azul e branco.

Em 1935 também ocorreu a estréia do filme "Favela dos Meus Amores", com direção de Humberto Mauro e Rodolfo Mayer, Carmem Santos e Silvio Caldas nos papéis principais. Como o filme tratava de vida na favela e de samba, os componentes da Portela participaram de várias cenas. Foi a primeira vez que uma escola de samba participava de um filme.

 

 

1935 Filme Favela

O Vae Como Pode foi o primeiro grupamento de samba a participar de um filme. Anúncio de "Favela dos Meus Amores", que estreou em 1935

 

 
Pesquisa e texto: Fábio Pavão e Marcello Sudoh
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