NÃO HOUVE ENREDO

 

1936

 

 

Pela primeira vez, a Portela desfilava com seu nome definitivo: Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela. O nome anterior, Vae Como Pode, foi considerado inadequado pelo delegado Dulcídio Gonçalves, responsável pelas licenças obrigatórias que as escolas precisavam obter para se organizarem e desfilarem. Como grêmios recreativos, as escolas puderam comemorar mais uma vitória na interminável busca pelo reconhecimento.

O regulamento de 1936 apresentou uma novidade que tornou a escolha das primeiras posições no mínimo estranha: a primeira colocada seria a escola que apresentasse melhor Harmonia (prêmio de 800 mil réis), a segunda melhor Samba (prêmio de 500 mil réis), a terceira melhor Bateria (prêmio de 200 mil réis), a quarta melhor Bandeira e (prêmio de 200 mil réis) a quinta o melhor Enredo (prêmio de 100 mil réis), além de cinco prêmios de igual valor denimonados "Consolação". A campeã ainda levaria para casa o "Troféu Frederico Trota". A realização do desfile ficou com o jornal "A Nação".
 

Para defender o título conquistado no ano anterior, a Portela precisava superar primeiramente seus próprios problemas. O artista Antonio Caetano, um dos principais responsáveis pelo sucesso da escola, afastara-se após desentendimentos com Paulo da Portela. O próprio Paulo, ocupado com o cargo de "cidadão-momo" oficial do carnaval, não pôde participar dos preparativos. Sem Paulo e Caetano, coube a Lino Manuel dos Reis a tarefa de colocar a Portela de maneira digna na avenida.

O desfile ocorreu na Praça Onze, dia 23 de fevereiro, um domingo. Segundo o "Jornal do Brasil", desfilaram 27 escolas filiadas à União das Escolas de Samba (UES) formadas por cerca de 40 mil sambistas. As agremiações se apresentariam por ordem de chegada, das 21h às 4h, e teriam 15 minutos para desfilar em frente aos julgadores.

 

 

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Edição de 27 de fevereiro de 1936, de "A Nação", jornal patrocinador do desfile das escolas de samba em 1936. Na manchete principal, a Mangueira é tida pelo jornal como a campeã do Carnaval. Mas nota logo abaixo da foto afirma que pelo resultado oficial o título é da Portela

 

 

 

Controvérsia

Não houve enredo, os sambas apresentados já eram conhecidos por todos e as cordas utilizadas pela Portela foram cedidas pela Unidos da Tijuca. Apesar do desfile bastante confuso, a força de vontade dos portelenses conseguiu superar os problemas.

Contudo, o que marcou esse certame foi o anúncio da Escola campeã. A comissão julgadora formada por Darcy Adesi, Júlio Mattos Soares, Manoel Ferreira e Antônio Borges da Cunha, definiu a Portela na terceira colocação por ter apresentado a melhor bateria (37 pontos). Porém, os jornais "A Nação", promotora do evento, "A Noite" e "Correio da Manhã" publicaram na quinta-feira, dia 27 de fevereiro, que a campeã havia sido a Portela.

Ao consultarmos todas as publicações de ”A Nação” daquele período, a manchete do dia 27 de fevereiro, no topo da página 9, afirma que a Mangueira foi a vitoriosa segundo o julgamento do jornal (foto acima). No entanto, na mesma página, abaixo da foto do lado direito, um sub-título aponta que pelo "Julgamento Oficial das Escolas de Samba" o título teria ficado com a Portela, sendo a Mangueira a segunda colocada.

A vitória da Portela já havia sido publicada pelo jornal "A Noite" em sua edição de 26 de feveriro de 1936 (foto abaixo). Foi a primeira publicação a divulgar o resultado.

Já "A Rua", outro jornal que cobriu os desfiles, publicou que o resultado mais justo seria a Portela sair da Praça Onze com o bicampeonato, prova de que os portelenses haviam conseguido se superar.

Somente no dia 3 de março, o "Correio da Manhã" divulgou nota assinada por Servan Heitor Carvalho, então presidente da UES, declarando a Unidos da Tijuca como vencedora do carnaval de 1936, por haver conseguido o maior número de pontos (34) no quesito principal, que era Harmonia.

O que teria ocorrido entre o dia 23 de fevereiro e 3 de março? Por que o jornal promotor insistiu na vitória da Mangueira enquanto a Portela havia sido declarada oficialmente campeã? Por que o jornal promotor do evento não publicou errata? Quais motivos levaram a UES a declarar, cinco dias depois da apuração, a vitória da Unidos da Tijuca?

Sob a liderança de Mestre Betinho, a "Tabajara do Samba", nome pelo qual a bateria da Portela ficaria conhecida anos mais tarde, já se consolidava como a principal da cidade. No confuso resultado de 1936, a Portela ficou em terceiro lugar graças à batida firme de seus ritmistas, que haviam conseguido 37 pontos naquele Quesito.

 

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Edição de 26 de fevereiro de 1936 do jornal "A Noite" anuncia o título da Portela

 

 

 

Pesquisa e texto: Fábio Pavão e Marcello Sudoh
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