"O CARNAVAL"

 

1937

 

O carnaval de 1937 aconteceu meses antes do golpe do Estado Novo e os primeiros sinais das mudanças políticas se refletiram na organização dos desfiles.

O Departamento de Turismo do Distrito Federal, sob direção de Wolf Teixeira, marcou a apresentação das escolas de samba na Praça Onze para às 22h, do dia 7 de fevereiro, domingo de carnaval. Mais uma vez o sonho dos sambistas de desfilarem na imponente Avenida Rio Branco tinha sido adiado. Se inscreveram para o evento 32 agremiações.

Eleito "Cidadão Samba" e tendo que cumprir longa agenda carnavalesca definida pelo Departamento de Turismo, Paulo da Portela não poderia dedicar-se integralmente à sua escola, que mais uma vez sentiria a falta do seu maior líder. Sem a participação ativa de Paulo e com a saída de Caetano, que desde o ano anterior deixara a escola, Benício, Lino Manuel dos Reis, João da Gente, Alcides Dias Lopes, Manuel Bam Bam Bam e Antonio Rufino ainda buscavam uma forma de se organizarem. Devido aos problemas, Lino escolheu um enredo simples para desenvolver: o carnaval, onde tudo era válido.

O povo, fantasiado e bastante animado, lotou o tradicional ponto de encontro dos sambistas. Paulo vinha à frente da Portela, 10ª escola a desfilar, cantando sambas conhecidos por todos. O "Cidadão Samba" foi imediatamente aclamado pelo público, colocando a Portela, apesar de tudo, na briga pelo campeonato.


Luzes apagadas


Alheio à grande festa que as agremiações estavam fazendo e à alegria do povo que presenciava o espetáculo, o delegado Dulcídio Gonçalves, o mesmo que dois anos antes tinha exigido a mudança do nome da Portela, ordenou, por volta das 3h e para espanto de todos, que as luzes fossem apagadas, que os cordões fossem retirados, que os policiais deixassem o local e que o desfile fosse encerrado. Até aquele momento haviam desfilado 16 escolas. Duas não apareceram e outras 14 aguardavam para se apresentar, dentre elas a Mangueira, o Prazer da Serrinha e a Unidos da Tijuca, campeã do ano anterior.


A comissão julgadora, nomeada pelo Conselho de Turismo e composta por Raul Alves, de "A Pátria", Carlos Ferreira, de "A Batalha", Abílio Harry Alves, do Departamento de Turismo, e Lourival Pereira, de "O Jornal" (o jurado Romeu Arede, do "Jornal do Brasil", estava selecionado, mas não compareceu), julgou as escolas que se apresentaram e declarou campeã a Vizinha Faladeira, da região portuária do Rio de Janeiro, com 187 pontos. A Portela ficou na segunda colocação, com 175 pontos. Segundo edição de "O Jornal" de 11 de fevereiro de 1937, a própria União das Escolas de Samba (UES), durante a apuração, resaltou a belíssima participação da escola de Oswaldo Cruz. O jornal "O Radical", de 12 de fevereiro (abaixo), publicou que a Portela havia se apresentando como um verdadeira escola de samba, respeitando as tradições e desfilando sem alegoria.

 

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Edição de 12 de fevereiro de 1937 de "O Radical" elogiando o desfile da Portela


A Vizinha Faladeira levou para a avenida instrumentos de sopro - aproveitando-se do regulamento daquele ano que excluía a proibição deles - carros motorizados, cavalos e outros elementos que descaracterizavam uma escola de samba. Com certeza, se o regulamento dos anos seguintes não restabelecesse alguns pontos que hoje caracterizam as escolas, o carnaval teria tomado um outro rumo.

Outro fato envolvendo a Portela ocorreu antes do carnaval. No final de janeiro, O Departamento de Turismo realizou concurso de sambas entre os compositores das escolas de samba, durante a anual e famosa "Feira de Amostras". Boaventura do Santos foi classificado em terceiro lugar. A disputa foi vencida por Cartola. Já no dia 28 de dezembro, na "Feira de Amostras" seguinte, ocorreu o desfile de escolas de samba. A Portela ficou na segunda colocação atrás do União do Tuyuti.

 

Pesquisa e texto: Fábio Pavão e Marcello Sudoh
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