"DEMOCRACIA NO SAMBA"

 

1938

 

 

Em meados de fevereiro, por ordem do Secretário de Obras Públicas da Prefeitura do Rio de Janeiro, Hélio de Brito, foram apressadas a demolição da Escola Benjamin Constant e os locais de paragens de veículos na Praça Onze. A decisão era parte do projeto de renovação da região e, desde o período em que o governo ainda cogitava o planejamento das obras, os jornais anunciavam o possível fim da Praça Onze como reduto dos desfiles das escolas de samba. Contudo, no espaço aberto pelas obras foi construído um tablado onde as agremiações se apresentariam.

O "Dia do Samba", evento oficial assim denominado pela Secretaria de Turismo, foi realizado na Praça Onze no dia 27 de fevereiro, domingo de carnaval. O "Jornal do Brasil", em sua edição do dia do desfile, publicou o nome das 37 escolas participantes e o horário em que elas desfilariam, das 19h às 4h45. A Portela desfilaria às 3h, depois da União de Madureira e antes do Prazer da Serrinha.

Pela primeira vez constava no regulamento a proibição de carros alegóricos ou carretas, ainda resultado do desfile da Vizinha Faladeira no ano anterior. Também aparecia a proibição de histórias internacionais, esta última influência do projeto nacionalista de Getúlio Vargas, que considerava as ascendentes escolas de samba a verdadeira expressão dos valores culturais genuinamente brasileiros.

Chovia muito durante todo o dia. Com muita dificuldade, a Portela dava os últimos retoques para o desfile, esse ano um pouco mais estruturada que nos últimos carnavais. Coube a Benício a tarefa de conseguir a licença para que a escola pudesse desfilar. Os figurinos ficariam por conta de Antônio Rodrigues e do presidente Alberto Machado.

 

Abre-Alas espelhado

A grande novidade seria a maior participação de Paulo da Portela, que passaria a se dedicar mais a sua escola. Contrapondo-se ao momento político que o país atravessava, em pleno Estado Novo, o enredo da Portela foi "Democracia no Samba", tendo Lino Manuel dos Reis e Candinho à frente do barracão.

Ainda tentando superar a ausência do artista Caetano, a equipe preparou uma abre-alas espelhado, apresentando pela primeira vez esse material no desfile das escolas de samba. Coube a um lustrador chamado Empata a tarefa de carregar o abre-alas na avenida.

Sob fortes chuvas, a Portela entrou na Praça Onze. A bateria de Mestre Betinho procurava superar as dificuldades do forte temporal que caía. Alvaiade, chefe de Conjunto, procurava empolgar os molhados componentes.

Todas as 37 escolas conseguiram se apresentar, apesar dos problemas, inclusive a Portela. Mas segundo os jornais da época, o desfile não foi julgado porque os jurados não compareceram. A chuva teria sido o motivo. Contudo, na realidade, dois dos três jurados estiveram na Praça Onze naquela noite.

 

O ocorrido

O primeiro a se manifestar pela imprensa foi o jornalista Domingos Rubin do "Correio da Noite". Ele deu entrevista o "Jornal do Brasil" no dia 1° de março, afirmando que havia chegado à Praça Onze às 20h25, sob forte temporal e esperou durante 30 minutos a chegada dos outros membros da Comissão Julgadora - Lourival Pereira ("A Tarde") e Mário Domingues ("Lux Jornal") -, que não compareceram. O mesmo fato também foi noticiado pelo "Correio da Manhã" do dia 3 de março.

Porém, no dia 4 de março, o "Diário Carioca", "A Batalha" e a "Gazeta de Notícias", publicaram nota do jornalista e julgador Mario Domingues contestando a versão do colega Domingos Rubin. Segundo Mario, ele teria chegado ao local às 19h e assistido a Fiquei Firme, primeira escola a desfilar. Mesmo se os outros jurados chegassem após a Fiquei Firme, o julgamento do concurso ficaria prejudicado porque somente ele presenciou o desfile da primeira escola. Assim, Mario resolveu ir embora, o que ocorreu às 20h15. Ao se retirar, entregou nota de comparecimento ao presidente da União das Escolas de Samba (UES), Eloy Antonio Dias, e ao secretário da mesma, Dulcemar Garcia. Dessa forma, o jornalista e julgador afirma no final da nota, que o único a ter comparecido na hora marcada teria sido ele. Nota semelhante foi publicada pelo "Correio da Manhã" em 5 de março.

Confirmando a versão de Mario Domingues, o jornal "O Radical" publicou reportagem, também no dia 4 de março, com o título "Porque os membros da Comissão Julgadora das Escolas de Samba não appareceram?" (mantemos a grafia original segundo a foto abaixo). Conhecido pelo perfil editorial progressista, "O Radical" criticou o descaso dos julgadores para com as escolas de samba.

Infelizmente não foi possível encontrar nenhuma menção direta à Portela e ao que a Escola havia apresentado em seu desfile naquele ano.

 

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Edição de 4 de março de "O Radical"

 

 

Pesquisa e texto: Fábio Pavão e Marcello Sudoh
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