SINOPSE DO ENREDO DE 2015

 

Portela Carnaval no Rio de Janeiro 2015 foto Fernando Maia R

 
Rio, hoje meu samba se reveste do manto azul que teu céu empresta à Majestade do Samba, que em sua fugaz realeza foge à realidade e, na “surrealeza” de sua beleza, te faz a festa.
Num olhar dito louco e transgressor, te ergo aqui um monumento aos seus 450 janeiros, que distorcem o tempo e dissolvem as duas realidades afastadas para fundir-se em um sonho febril, como visão de “Dalí” e outros tantos que, na absurda plasticidade das cores e formas, reinventam seus encantos mil.  

Eu, artista de trinta carnavais, vividos entre devaneios e verdades, criei sonhos e vesti teu povo de plumas e paetês, iludindo os olhos estrangeiros que se encantam com a sua maior festa, sem perceberem que és feito de antagonismos que me inspira a olhar-te com o meu tempo, entendendo o seu, pelo tempo de Deus.  

Usando seus curvos e distorcidos cenários, interpreto e retrato a ti e a teu povo, diverso e plural, que te faz cidade surreal, hoje expressa em arte neste carnaval. Para isso, me desfaço de laços, refaço meu traço, me solto em teu espaço e, como um “salvador daqui”, recrio suas linhas pela visão da arte de tantos, pois és cria de Deus e tens fome da arte do Homem.
   
És a feliz Cidade Maravilhosa, repleta de recantos que são espantos da criação, da imagem provocante e criativa e da arte que sustenta a vida, quando as mãos mais abusivas tentam te imitar em vão. És a viagem convidativa, que hora se refaz e se reconstrói, nas asas da imaginação do lúdico fértil e gentil, onde hoje imagina, Rio, a minha “águia redentora”, num abraço de asa acolhedora que te faz abrir imenso o coração do meu Brasil.
 
És o Rio que surge de um delírio, que nunca foi foz ou desemboco de rio algum, convergindo fantasias desde o branco olhar distante no tempo, surgido das ondas, ungido do desconhecido, dos bravos, dos reinos de além mar. Foste o palco de disputas e conquistas, um caldeirão de culturas a se mesclar enfim, nos contornos do desenho sensual das curvas de sua geografia, como corpo de mulher de fartos seios a debruçar-se assim, sobre o mar, no abraço plácido de sua bela Guanabara.  

És o verde que esbanja o viço da tenra juventude, que se retorcendo entre o azul serpenteia o olhar à mata que entra pelo mar, és “jardim das delícias”, éden de sua plenitude, que às vezes se disfarça em canteiros, legados de Dom João, na terra em que tudo dá, portal a espelhar suas florestas e a envolver como moldura os recortes dos teus rochedos, sua natural escultura, onde o sol vem repousar.
 
És, de fato, o cartão postal de todo um país, paisagem abençoada pelos trópicos, de relevos imprevisíveis feito notas musicais, que acalantam e inspiram a criatividade de seu povo, a refazer o compasso em uma nova divisão, traduzindo suas curvas que entram pelo “balanço de seu mar”. És tempero puro de sal e sol, a têmpera de jeitos e trejeitos ao tempo que passa, com graça de não passar, és sempre jovem no que esboça, a “bossa” nova de cantar, as suas sereias morenas, as princesas do seu mar, que “continua lindo”, “continua sendo” assim a desfilar, “do Leme ao Pontal”, de “maravilha de beleza e do caos”, de garotas de Ipanema, de meninos do Rio, de seus 40 graus.  

És a vida fervilhante, que vai e vem, entra e sai, atravessando os montes ao monte de coisas por ver, no atraente paraíso que revela as faces do pecado e do prazer, de suas noites boêmias sob os teus tantos arcos, Lapa que abriga segredos múltiplos de sabores, de cores e de tons. És a catedral da luxúria, a serpente tentação que nos induz ao sonho, nos conduz à dança das ilusões, na sedução que lança o brilho dos seus neons.  

És num momento à parte, um mundo em seu próprio universo, que gira, que rola com ginga e malícia, na magia que joga e inocente se lança ao espaço ao panteão dos deuses, o palco do absurdo, o templo do futebol. Maracanã, és nave mãe do planeta bola, de teus fiéis, da crença e paixão, abduzidos de êxtase, supridos de fome e sede, ao balançar da rede, em gritos de gol.  

És ponto de chegada e de partida, estação Central do Brasil, trilhos que levam e trazem teu povo, nos destinos que se cruzam em terras suburbanas, nos terreiros de bambas, celeiros de onde o samba saiu. És tu enfim, o rio de contrastes, que passa e que atravessa a realidade da vida com sua alegria de viver.
 
És um anfiteatro das artes que gera, em cada canto dos seus recantos montanhosos, eventos que te montam irreal. Invertes a valorizada vista altiva para o descanso de tuas favelas encontrarem a cidade no asfalto, pois és imaginada em cores, formas e vida e acima de tudo, és o samba de todos, cantado pelo sangue azul da Portela, que dentro de teu tempo festivo, meu Rio, comemora ainda a vida vivida da arte de um príncipe “da Viola”. Hoje, o samba que ouves, te festeja com a fome de saborearmos tua arte de ser, receber e inspirar. Aplausos aos teus quatrocentos e cinquenta janeiros, criada cidade de Deus aonde até teu filho veio morar e pra sempre te abraçar. Parabéns a você e a todos nós, por sermos tão criativos em vivermos em ti, feliz cidade surreal. 

Autor: Alexandre Louzada(Carnavalesco) Colaboração: Luiz Carlos Bruno (Diretor de Carnaval)   
 
 
   
JUSTIFICATIVA DO ENREDO   

O enredo “‘ImaginaRIO’, 450 Janeiros de Uma Cidade Surreal”, traz para a Marquês de Sapucaí neste carnaval uma festiva e merecida homenagem ao jubileu de fundação da cidade do Rio de Janeiro, que enche de orgulho a todos que tiveram a graça de nascer, ou mesmo escolheram viver, nesta urbe de alegrias e contrastes. Uma feliz cidade, maravilhosa em encantamentos, encantos estes que a tornam ímpar, inigualável, única, inimaginável, surpreendente e “surreal”. 
 
Surreal em sua geografia, que inspirou desde sua criação a todos que a veem ou nela vivem. Impares contrastes que nela residem e encantam a todos, fazendo nossa imaginação voar e inspira seus habitantes, artistas do bom humor e da irreverência, a chamá-la popularmente de surreal. Neste carnaval, o carnavalesco Alexandre Louzada, no melhor estilo dos artistas populares, fazendo a ponte e mesclando as concepções do povo e da arte erudita, usando uma licença poética que só um enredo de escola de samba é capaz de oferecer, recria de forma criativa, inspirado na plástica da arte surrealista e influenciado por mestres como Salvador Dali, nosso paraíso.   

Em nosso primeiro setor, Louzada, escrevendo uma carta de felicitações à cidade, proclama ser Deus o primeiro artista surreal, por ter criado o Rio de Janeiro com formas tão fantásticas. Ele, como grande criador da arte carnavalesca, se declara o “Salvador Daqui”, assumindo sua condição de artista tipicamente carioca, mestre de cerimonias que cria o ambiente para a festa encomendada pela Portela, anfitriã deste grande evento, para exaltar o Rio e seus cartões postais.  

Seguindo pelo segundo setor, Louzada descreve as aguas repletas de golfinhos que, emolduradas pelas belas e sugestivas curvas de nosso montanhoso relevo, encantaram os vindos de além-mar, fazendo-os imaginar formas sensuais que serviram de pano de fundo para as batalhas pela posse definitiva da terra, que resultaram na fundação desta linda cidade. 

Como se entrando por um portal magico no terceiro setor, vislumbraremos a frondosa criação de D. João VI, o Jardim Botânico, que se oferece como entrada de uma das maiores florestas urbanas do mundo. Mesmo estando localizado no coração de uma grande metrópole, o jardim botânico carioca é um paraíso que, além da beleza de suas incontáveis espécies de plantas, faz aflorar a inspiração de seus visitantes ao passearem por esse delicioso éden urbano.
 
Em nosso quarto setor, um doce balanço guia essa festa a caminho do mar. A forma intimista de tão ímpar geografia, com o sol e a brisa do mar nas mãos de músicos praianos, remontam o nosso velho samba com uma nova bossa, dando luz a uma rica sonoridade brasileira e contribuindo para a formação de uma das mais musicais e receptivas cidades do mundo.  
 
Entre o sol das praias e o calor das noites cariocas, existem montanhas a serem atravessadas por tuneis em nosso quinto setor. Por eles chegamos a Lapa, lugar marcado pela luxuria e pelo pecado, cenário que exemplifica a pluralidade desta cidade, ponto de encontro deste povo boêmio que em tribos povoam este lugar.  

Em nosso sexto setor, trazemos o Maracanã, nosso maior monumento ao futebol, icônico templo mundial deste esporte. Projetado de forma inovadora por seus arquitetos, o que nos permite imaginá-lo como um disco voador, no delírio de nosso artista ele é uma nave mãe esportiva, recriando este cartão postal que influencia os habitantes do Rio de Janeiro. Abduzido por esta nave, cariocas de diferentes classes, origens e credos tornam-se um só, afastando suas diferenças ao assistirem seus intergalácticos astros do futebol buscaram incansavelmente um momento vibrante e delirante, explodindo no grito de alegria, o abraço da euforia, o momento do gol dentro desta fantástica espaçonave.  

Pelos trilhos que percorrem os caminhos férreos suburbanos, chegando a Central do Brasil para rasgar a Sapucaí, em nosso sétimo setor vem o trem que traz o povo do samba. Na imaginação de nosso artista, a Central é um portal do samba, por onde o povo do subúrbio chega para participar da grande festa carnavalesca.  Neste trem vem a folia de rua, as cores do carnaval carioca e os artistas das escolas de samba, homenageando esta maravilhosa cidade. Da estação de Madureira, a décima sexta do ramal principal, também chega a majestade do samba, a Portela, representando todas as escolas que fazem desta uma das festas mais surreais do planeta.