"DEZ ANOS DE GLÓRIAS"
 
1941
 
 
Era dia 21 de fevereiro de 1941. As escolas de samba desfilavam cientes de que o prestígio de que gozavam crescia a cada ano. Nesse carnaval, entretanto, o recrudescimento da guerra na Europa traria como conseqüência um menor destaque para a festa na imprensa. Nada que pudesse abalar a animação dos sambistas, afinal "guerra" ainda era uma palavra distante da realidade dos poetas do morro.
 
Apenas as escolas de samba que possuíssem autorização do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do Governo, acompanhada da prestação de contas participariam do desfile oficial. Através de controle mais rigoroso, o Governo Getúlio Vargas pretendia inibir a apologia à malandragem exaltando as virtudes do trabalho. E os compositores das escolas de samba faziam parte daquele grupo que precisava ser monitorado. A subvenção às escolas de samba foi paga no dia 19 de fevereiro, dias antes do desfile, e o valor foi de 1 conto e 500 mil réis para cada agremiação.
 
Em uma Praça Onze já bastante destruída e repleta de entulho, a Portela se preparava para mais um desfile. "Onde está o Paulo?" era pergunta constante entre os quase 400 portelenses que se preparavam na concentração. Paulo da Portela viajara para São Paulo em companhia de Cartola e Heitor dos Prazeres e até aquele momento não havia retornado.
 
Mesmo com o clima tenso e de expectativa, Manuel Bam Bam Bam, o famoso valentão e mestre-sala da Portela, divulga para a imprensa presente a ficha técnica da escola.
 
 
1956 Bambambam
 
 Manuel Bam Bam Bam (Revista "O Cruzeiro", 1956)
 
 
1ª Parte: 30 baianas;
2ª Parte: 12 cadetes;
3ª Parte: 12 acadêmicos;
4ª Parte: 20 árabes;
5ª Parte: 40 pessoas representando Justiça e União;
Coral Masculino: 100 pessoas;
Bateria: 100 pessoas.
 
A Portela se preparava para contar sua própria história nesses 10 anos de desfiles. Haveria a associação de cada enredo apresentado pela escola com um ano de Governo Vargas. As fantasias estavam luxuosas. O trabalho de Paulo da Portela e Lino, meticulosamente preparado, tinha tudo para trazer o título pela terceira vez para Oswaldo Cruz. A alegoria do cavalo Mossoró (1934) seria revivida. A confiança era total. Mas faltava Paulo, que sempre trazia confiança para todos. Onde ele estaria? O momento do desfile se aproximava e a tensão crescia entre os componentes.
 
 
A briga
 
1941 PPortelaCartolaCCachaca ORadical
 
A partir da esquerda: Paulo da Portela, Cartola, um jornalista, Carlos Cachaça e uma pessoa não identificada. Foto publicada por "O Radical" (5/1/1941) dias antes da expulsão de Paulo do desfile da Portela
 
Quase na hora da escola entrar eis que surge Paulo, acompanhado de Cartola e Heitor dos Prazeres. Trajavam roupas pretas, como era hábito do conjunto carioca, formado por estas três sumidades da música brasileira. Ao avistar Heitor se aproximando, o sangue de Manuel Bam Bam Bam ferveu. Lembrou-se naquele instante de 1929, do desentendimento entre Heitor e seu amigo Antonio Rufino e da navalhada desferida por ele mesmo contra seu desafeto.
 
Alegando uma determinação do próprio Paulo, o que é confirmado por praticamente todos os portelenses que viveram aquele momento, Manuel Bam Bam Bam impede Paulo e seus amigos de desfilarem pela escola trajando roupas que não fossem azul e branco. Bam Bam Bam ainda abre uma exceção para Paulo, afinal ele era a figura mais importante da escola, mas não poderia permitir que Cartola e, principalmente, Heitor, participassem do desfile trajando aquelas roupas. Paulo, solidário com seus companheiros de conjunto, desiste de desfilar por sua escola do coração, agremiação que surgiu principalmente por sua iniciativa e capacidade de liderança.
 
Assim, desnorteados e perplexos com o fato que acabaram de presenciar, os portelenses iniciaram o tão aguardado desfile. A bateria de Betinho, ao fundo e vestida de Diabo, fantasia comum nos carnavais de então e que já havia sido enredo da Portela anos antes, ainda espera o sinal de Paulo para começar a tocar seus instrumentos que acabaram de ser esticados em uma pequena fogueira próxima.
 
À medida que a escola passava ficava claro que a perplexidade daria lugar a uma garra que só a Portela seria capaz de possuir. A comissão de frente, composta por Bem, Abelardo, Candeia Velho e outras figuras representativas da escola, servia de cartão de visitas da agremiação. O samba "Lacrimário", de Bibi e Chatim, era cantado a plenos pulmões e versados na segunda parte por Alcides Dias Lopes, João da Gente e Cláudio Bernardo.
 
Mesmo perplexos pelo incidente no início, os portelenses pisaram forte na Praça Onze, já bastante destruída pelas obras que deram lugar à Avenida Presidente Vargas. No fim, o público não tinha dúvidas de que a Portela era favorita ao título. A banca de julgadores composta pelos jornalistas Lourival Dallier Pereira, Arlindo Cardoso, Álvaro Ponto da Silva, e pelos artistas Calixto Cordeiro e Francisco Guimarães Romano iriam confirmar este fato.
 
O desfile começou às 21h e a Portela foi a décima escola a desfilar entre o Prazer da Serrinha e o União do Sampaio. Segundo as autoridades do Distrito Federal, os grupos carnavalescos se apresentaram com cerca de 50 mil sambistas.
 
Entre os escombros da antiga praça que sumia para dar lugar à moderna avenida, os portelenses, apesar da certeza do dever cumprido, só comentavam sobre a briga entre Paulo e a Portela. Mas a alegria viria poucos dias depois, com a confirmação da vitória da Portela (419 pontos). Era o 3º título de campeã do carnaval carioca que a Portela conseguia e o 1º de uma série de sete campeonatos consecutivos que a agremiação faturaria. Até hoje, a Escola é a única no rol dos desfiles a ser heptacampeã!
 
 
1941 2 26 ANoite Portela
 
Portela desfila na Praça Onze ("A Noite", 26/2/1941). Começa a série de sete títulos que a Escola faturaria até 1947
 
 
 
Pesquisa e texto: Fábio Pavão e Marcello Sudoh

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