"CARNAVAL DE GUERRA"

 

1943

 

Se antes os horrores da guerra estavam distantes dos sambistas, o ano de 1943 trouxe para o Brasil os pesadelos que atormentavam a Europa. O afundamento de navios brasileiros, creditado à ação de submarinos alemães, motivou a declaração de guerra do Brasil aos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Entre os náufragos que sobreviveram aos ataques, estava um jovem que viria a ser um dos maiores compositores de todos os tempos: o imperiano Silas de Oliveira.

 

Diante dessa situação, muitos achavam que não haveria clima para o carnaval. Mas, diferente do previsto, ocorreram dois desfiles em datas distintas: no 24 de janeiro e no dia 7 de março, sendo este último o desfile oficial da cidade.

 

Em São Januário

 

Das principais entidades carnavalescas do período, doze escolas de samba desfilaram no dia 24 de janeiro de 1943, domingo, no Estádio de São Januário, em evento organizado pela Legião Brasileira de Assistência (LBA), para homenagear a primeira-dama, Darcy Vargas. A arrecadação dos ingressos pagos foi em benefício do "soldado combatente". Este foi mais um evento visando envolver as escolas de samba no chamado "esforço de guerra".

O Estádio era conhecido naquela época por abrigar os principais eventos políticos do Governo Getúlio Vargas.

A Portela apresentou uma alegoria que era formada por uma vaca com bandeiras cravadas em seu corpo. A vaca representava os países do Eixo e o impacto da imagem, criada por Lino, Euzébio e Nilton, mereceu grande destaque. Segundo afirma Nelson da Nobrega Fernandes no livro "Escolas de Samba: sujeitos celebrantes e objetos celebrados" (Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 2001), o samba cantado pela Portela no Campo do Vasco da Gama estava dentro dos moldes que os militares desejavam. A melodia do samba é desconhecida.

 

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Edição de O Jornal de 26 de janeiro de 1943, reportando o desfile ocorrido no Estádio do Vasco da Gama

 

 

Na Avenida Rio Branco

 

O desfile oficial ocorreu no dia 7 de março de 1943, um domingo, às 20h, na Avenida Rio Branco. Finalmente as escolas de samba ocupariam o palco principal do carnaval carioca. A Liga de Defesa Nacional (LDN) e a União Nacional dos Estudantes (UNE) convocaram as "agremiações dos morros" para participarem do "Carnaval da Vitória". Nelson da Nobrega Fernandes afirma na obra acima citada, que a Rio Branco foi ocupada pelas escolas de samba porque os Ranchos e as Grande Sociedades, devido a Guerra, deixaram de desfilar naquele ano. De fato, os jornais da época reportam que apenas algumas dessas agremiações se apresentaram junto às escolas de samba. Compareceram ao local 22 delas. A concentração foi feita na Praça Mauá e o cortejo subiu a Avenida Rio Branco em direção ao obelisco.

A Portela apresentou o enredo "Carnaval de Guerra". Segundo Dulce Tupy, no livro "Carnavais de Guerra" (ASB, 1985), os enredos eram liberados pela UNE e pela LDN, "cabendo apenas aos sambistas o desenvolvimento do tema e do samba-enredo".

Uma alegoria representando as Nações Unidas mereceu destaque da imprensa e acabou ganhando o prêmio de melhor alegoria (veja foto abaixo). O samba "Brasil, Terra da Liberdade", de Nilson Gonçalves e Alvaiade, posteriormente popularizado na voz de Ataulfo Alves, mostrava-se totalmente favorável à entrada do país no conflito.

A comissão julgadora, reunida na sede do jornal "A Noite" e formada por Guimarães Machado, Maurício Vinhais, Benedito Calheiros Bonfim, Nourival Pereira e Luiz Gonzaga, avaliou os quesitos Samba, Harmonia, Bateria, Bandeira e Enredo.

A Portela sagrou-se campeã, com 9,1 pontos de média. Como prêmio, recebeu das mãos do general João Marcelino Pereira e Silva, vice-presidente da comissão executiva da LDN, a importância de Cr$ 500 mil (cruzeiros). Em segundo ficou a Mangueira, seguida do Azul e Branco do Salgueiro e do Deixa Malhar.

Era o quinto título da Portela. O terceiro dos "sete anos de glória". Nem os horrores da guerra conseguiam apagar o brilho da Portela, que se consolidava como a principal escola do carnaval carioca.

 

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Edição de 11 de fevereiro da "Gazeta de Notícias", com a alegoria premiada da Portela

 

 

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Jornal "A Noite" de 6 de março de 1943, convoca escolas de samba e critica o ditador Adolf Hitler

 

 

 

Pesquisa e texto: Fábio Pavão e Marcello Sudoh

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