"BRASIL GLORIOSO"

 

1945

 

O ano de 1945 não começa mais animador para os sambistas. A tensão na Europa continuava e a participação direta dos pracinhas na Itália fez desaparecer completamente a alegria, fundamental para a festa do carnaval, que naquele ano ocorreria entre 10 e 13 de fevereiro.

O desfile foi antecipado e realizado no Estádio de São Januário, sede do Clube de Regatas Vasco da Gama, no dia 4 de fevereiro, domingo anterior à semana do carnaval. A imprensa só lembrou do espetáculo para registrar o triste incidente que marcaria aquele ano: a briga entre integrantes da "Depois Eu Digo", do Morro do Salgueiro, e da "Cada Ano Sai Melhor", do Morro de São Carlos.

O assassinato do sambista José de Oliveira, conhecido como "Matinada", em pleno estádio, deixou tristes recordações para a história das escolas de samba. A maioria dos jornais vendidos no dia seguinte ao episódio sequer descreveram como foram os desfiles e se concentraram no homicídio registrando dezenas de detenções de sambistas. O diário "Correio da Manhã" revelou que Matinada era membro da bateria. Já "A Noite" informou que os principais suspeitos pelo assassinato eram Mario de Souza e Gumercindo Pereira. Porém, no dia 8 de fevereiro, o mesmo diário anunciou a prisão de Acelino dos Santos, o "Bicho Novo", famoso mestre-sala do Morro de São Carlos. Ele foi detido na estação de Parada de Lucas (foto abaixo). Dias depois também foi preso o sambista Dedé, acusado como cúmplice do crime. O dois passaram o carnaval de 1945 atrás das grades. "Bicho Novo" foi liberado meses depois, quando finalmente os policiais confirmaram a veracidade de seu depoimento, pois ele não havia comparecido ao desfile em São Januário.

 

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Edição de 8 de fevereiro de 1945, do jornal "A Noite", dias antes do carnaval, divulga a prisão de "Bicho Novo"

 

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Dedé, Bicho Novo e Matinada (Edições de fevereiro do "Diário de Notícias")

 


Vozes de defesa

Aproveitando-se do incidente para reafirmar antigos estereótipos, parte da imprensa pediu para que providências enérgicas fossem tomadas contra as escolas. Algumas personalidades do samba, entre eles o já consagrado Paulo da Portela, transformaram-se nas vozes de defesa dos sambistas, fazendo uso do microfone de algumas rádios solidárias à causa das escolas.

Atento à importância das agremiações de samba para a cultura brasileira e para o carnaval, "O Jornal" publicou no dia 11, domingo de carnaval, fotos legendadas explicando a função dos principais segmentos de uma escola de samba: as pastoras, a bateria e o mestre de melodia (atuais diretores de harmonia).

 

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Edição de "O Jornal" de 11 de fevereiro de 1945 explicando o que era uma bateria

 

Mas o carnaval daquele ano não foi marcado apenas pela tragédia. Oito escolas se apresentaram, em mais um desfile organizado e com enredos definidos pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e pela Liga de Defesa Nacional (LDN). A turma de Oswaldo Cruz, já acostumada com as vitórias, estava confiante na conquista de mais um triunfo.

A Portela pisou o gramado de São Januário mostrando o enredo "Brasil Glorioso", com samba de autoria de Boaventura dos Santos, o Ventura. Mais uma vez os motivos patrióticos foram mostrados no desfile e a Portela obteve sucesso.

Não foi apenas a tragédia que ficou na lembrança dos sambistas. O desfile patriótico da Portela levou um pouco de alegria para a vida das pessoas que compareceram ao espetáculo. Apesar do momento difícil, o show não podia parar.

E mais uma vez a festa rolou em Oswaldo Cruz. A Portela era pentacampeã.

Era o sétimo título da Portela.

 

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Edição de "O Jornal" de 11 de fevereiro de 1945 destacando as pastoras

 

 

 

 

Pesquisa e texto: Fábio Pavão e Marcello Sudoh

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