"ALVORADA DO NOVO MUNDO"

 

1946

 

Mal terminou a guerra e os sambistas começaram a fazer planos para o carnaval de 1946, que ocorreria entre os dias 2 e 5 de março. Seria um espetáculo grandioso. As escolas que preferiram se afastar durante o período da Guerra voltariam em grande estilo. Animada, a União Geral das Escolas de Samba (UGES) decidiu que todas as agremiações teriam que apresentar enredos alusivos à vitória aliada. Foi o que aconteceu. Porém, a falta de verba devido o conflito armado fez com que as escolas se apresentassem com menos emplogação que o esperado.

 

Em janeiro, os jornais anunciaram que os desfiles das escolas de samba retornariam à Praça Onze. Contudo, a Av. Presidente Vargas, em frente à escola Rivadávia Correia, acabou recebendo o certame, que trouxe novidades importantes: a proibição do improviso nos sambas cantados e a obrigatoriedade da segunda parte na letra da obra, determinando os rumos que o samba seguiria nos carnavais seguintes.

 

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Edição de 2 de março de 1946 de "A Noite" anuncia o Carnaval da Vitória

 

Outro ponto de destaque no Regulamento foi a proibição de carros mecânicos ou puxados por animais, com a intenção de traçar uma clara diferença entre as escolas de samba, os ranchos e grandes sociedades. Entretanto, admitia os trabalhos de pasta e caramanchões, ratificando, também, a exigência da ala das baianas e a proibição de instrumentos de sopro. O Regulamento reconhecia ainda os seguintes instrumentos da bateria: violão, cavaquinho, pandeiro, tamborim, surdo, cuíca, reco-reco, tarol e cabaça.

Coube ao artista Lino Manuel dos Reis idealizar o enredo da Portela. "Alvorada do novo mundo" seria o fechamento da série de enredos patrióticos que a escola apresentou nos últimos anos, orientada pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e pela Liga de Defesa Nacional (LDN).

E a Portela pisou forte na avenida. A equipe de barracão, liderada por Lino, criou alegorias que fizeram enorme sucesso, como as que representavam a "volta das forças armadas" e os "acordos ministeriais".

As escolas se apresentaram das 21h às 4h15 da manhã. Candeia e Isnard, em "Escola de Samba: a árvore que esqueceu a raiz" (Lidador-SEEC/RJ, 1978) descrevem parte do desfile da escola, que trouxe um panteão alegórico representando as "nações unidas" vitoriosas, com a figura de Hitler esmagado e Mussolini enforcado. As criações fortes idealizadas por Lino refletiam o imaginário popular coletivo daquele período.

 

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Abre Alas portelense trazendo o título do enredo da Portela. Foto publicada por "A Noite" de 5 de março de 1946


Hitler ajoelhado

Ao som de mais um samba de Boaventura dos Santos, o Ventura, que atendia perfeitamente às novas exigências do Regulamento, o povo via a representação dos adversários da democracia sendo humilhados e aplaudia. No final, uma alegoria mostrava o Tio Sam em pé, vitorioso, e Hitler ajoelhado. A empatia com o público foi imediata.

A comissão julgadora, formada por Manoel Piló, Cristóvão Freire, Armando Santos e Nourival Dalier Pereira, avaliou quesitos novos como Indumentária, Comissão de Frente, Mestre-Sala e Porta-Bandeira e Iluminação dos Préstitos, além dos já existentes Samba, Harmonia, Bateria, Bandeira e Enredo.

Após sete horas de desfile, como o público já esperava, a Portela sagrou-se novamente campeã, totalizando 80,6 pontos. Era o hexacampeonato da escola e a já rotineira festa voltaria a tomar as ruas de Oswaldo Cruz.

A Portela conquistava, assim, seu oitavo campeonato.

 

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"Diário da Noite" de 6 de março de 1946, Portela campeã!