"HONRA AO MÉRITO"

 

1947

 

O carnaval de 1947 foi considerado o "Carnaval da Paz" em homenagem à Força Expedicionária Brasileira (FEB). Mais uma vez, o desfile aconteceria na Av. Presidente Vargas, com o palanque da comissão julgadora montado diante da escola Rivadávia Correia. 

Em janeiro daquele ano, com o incentivo do Governo do Distrito Federal (atual cidade do Rio de Janeiro), foi fundada a Federação Brasileira das Escolas de Samba (FBES). Na ocasião, os jornais noticiaram que a nova entidade - rival da União Geral das Escolas de Samba (UGES) - possuía 61 agremiações filiadas. Porém, na data da fundação, apenas o Azul e Branco do Salgueiro aderiu a FBES, cuja criação teve motivo político: esvaziar a UGES, acusada de ser base eleitoral do Partido Comunista Brasileiro (PCB). O jornal "A Manhã" apoiava a FBES e o diário "Tribuna Popular", a UGES.

 

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"A Manhã" de 18 de janeiro de 1947: fundação da FBES

 

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"Tribuna Popular" de 25 de janeiro de 1947: escolas com a UGES

 

Polêmicas políticas

No dia 24 de janeiro, o "Tribuna Popular" publicou entrevista com o presidente da UGES, Servan Heitor de Carvalho, denunciando que dirigentes da FBES eram ex-membros da UGES expulsos por má conduta. Servan também afirmou que várias escolas que a FBES vinha anunciando como filiadas não exisitam ou já estavam extintas (veja foto abaixo).

Um dia após esta publicação, o mesmo jornal voltou a criticar a FBES por ter se aproveitado da presença dos dirigentes de algumas escolas, que foram ao Gabinete do Governador do Distrito Federal solicitar o subsídio para o carnaval e acabaram aparecendo como filiadas daquela entidade.

 

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O presidente da UGES sendo entrevistado pela "Tribunal Popular". Edição de 24 de janeiro de 1947.

 

Já a FBES organizou um banho de mar à fantasia na Praia de Ramos, ocorrido no dia 26 de janeiro, em homenagem ao Governador do Distrito Federal, Hildebrando de Araújo Góis. O evento foi diariamente anunciado pelo jornal "A Manhã", que previa a presença de dezenas de escolas de samba. Contudo, apenas o Império da Mocidade, de Colégio, compareceu.

No dia 9 de fevereiro, a FBES organizou mais um banho à fantasia na Praia de Copacabana. Compareceram dez escolas, a maioria radicada na Zona Sul e, algumas, criadas às pressas a fim de "engrossar" o evento. No dia 14 de fevereiro, sábado de carnaval, repetiu-se o desfile na Praia de Copacabana, dessa vez com 26 agremiações.

Enquanto isso, a UGES criou campanha de arrecadação de 100 mil cruzeiros para que as escolas de samba pudessem realizar o "Carnaval da Paz", no Campo de São Cristóvão, marcado para o dia 9 de fevereiro. O evento, com comício político e presença de parlamentares do PCB, co-organizado pela "Tribuna Popular", ganhou o apoio de Ataulfo Alves, Heitor do Prazeres, Mario Lago e Cyro Monteiro, reunindo 22 escolas de samba.

 

Portela na dela

As desavenças entre a FBES e a UGES, alimentadas por interesses políticos, acabaram envolvendo a Portela. No dia 28 de janeiro, o jornal "A Manhã" registra a visita de Pedro Nolasco Carneiro, membro do Conselho Fiscal da Portela. Segundo depoimento de Nolasco, o presidente da Portela, Benício Alberto dos Santos, teria recebido visita de jornalista de "A Manhã" e entregado a ele documentação referente ao pedido de subsídio dirigido ao Governo do Distrito Federal. Contudo, "A Manhã" negou ter enviado repórter à escola para buscar o pedido de auxílio.

O autor da reportagem alertou que "A Manhã" não estaria recolhendo os pedidos de auxílio  e solicitou que as escolas enviassem o pedido diretamente ao Departamento de Turismo para que pudessem receber o subsídio referente ao carnaval. Ainda segundo a reportagem, Nolasco teriam reclamado da presença de políticos nas escolas de samba e criticado a UGES.

Em edição de 29 de janeiro a polêmica continua, dessa vez com a presença do presidente da Portela, Benício Alberto dos Santos, que aparece em foto na redação de "A Manhã", apoiando a "despolitização" das escolas de samba (veja foto abaixo). Na reportagem, os presidentes da FBES e da UGES se "alfinetam".

 

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"A Manhã" de 29 de janeiro de 1947: o presidente da Portela (à direita) na sede daquele jornal

 

Na prática, a Portela não participou de nenhum evento ocorrido antes do desfile oficial. Apesar de permanecer filiada a UGES, interessava aos portelenses o subsídio concedido pelo Governo do Distrito Federal.

 

Santos Dumont

No desfile oficial, as escolas filiadas às duas entidades carnavalescas desfilaram na Av. Presidentes Vargas, para a mesma comissão julgadora, no dia 16 de fevereiro, domingo, das 21h40 às 4h25 de segunda-feira. Das 49 escolas inscritas, 27 compareceram ao certame. A Portela foi a décima quinta escola a entrar na avenida. A forte chuva que desabou naquele dia pode ter sido um dos motivos que levaram várias escolas a desistirem de chegar ao local. Contudo, segundo Nelson da Nobrega Fernandes, em "Escolas de samba: sujeitos celebrantes e objetos celebrados" (Editora Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 2001), as escolas de samba filiadas a UGES foram boicotadas pelos organizadores ligados à prefeitura. Este teria sido o verdadeiro motivo do não comparecimento ao evento de grande número de agremiações.

Na Portela, Lino Manoel dos Reis e Euzébio idealizaram o enredo "Honra ao Mérito", que prestava justa homenagem à Santos Dumont, pioneiro da aviação. Juntos, Lino, Euzébio e Nilton fizeram um trabalho de barracão primoroso, elogiado por todos os que presenciaram o espetáculo.

A comissão de frente, composta por sambistas da escola muito bem trajados, abriu o cortejo, sob aplausos do público. Diante de cada alegoria, painéis platinados ajudavam na compreensão do enredo. A história de Santos Dumont e suas fases épicas era contada em forma de arte popular.

 

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Portela na Av. Presidente Vargas. Edição de "A Manhã" de 20 de fevereiro de 1947

 


Fantasias de aviador

A alegoria representando a Torre Eiffel de Paris sendo contornada por Santos Dumont fez enorme sucesso. Um enorme globo com a imagem de Santos Dumont, onde as asas da aviação eram realçadas, também chamava a atenção. Após seis vitórias consecutivas, o público não tinha dúvidas de que a Portela estava bem à frente de suas adversárias.

Lino idealizou um conjunto de fantasias muito bonitas, onde predominava cetim em azul e branco. O coro masculino usava fantasias de aviador, numa verdadeira demonstração de talento dos artistas do barracão portelense. No final, a alegoria representando o "túmulo dos heróis" emocionou a todos e a Portela deixou a avenida ovacionada, favorita absoluta ao título.

A comissão julgadora, formada por Cristóvão Freire, Jaime Correa, Eduardo Magalhães, Capitão José Nunes da Silva Sobrinho, Manoel Piló e Armando Santos, avaliou os quesitos Iluminação dos Préstitos, Harmonia, Indumentária, Bateria, Comissão de Frente, Samba, Fantasia do Mestre-Sala e da Porta-Bandeira e Bandeira.

Como todos já esperavam, a Portela era mais uma vez campeã, com 39 pontos. A Mangueira ficou na segunda colocação, com 37,2 pontos. Era o último dos sete anos de glória. Um heptacampeonato jamais igualado na história do carnaval carioca, uma marca histórica, admirada e invejada pelos adversários.

Era a nono campeonato da Portela.

O ano de 1948 marcará a decepção da Portela com a FBES e, em parceria com a Mangueira, as duas agremiações serão os pilares da resistência contra a tentativa de aparelhamento das escolas de samba pelas forças conservadoras.

 

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"Diário da Noite" de 20 de fevereiro de 1947: Portela campeã

 

 

Pesquisa e texto: Fábio Pavão e Marcello Sudoh

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