"EXALTAÇÃO À REDENTORA"

 

1948

 

O carnaval de 1948 caiu no início de fevereiro e, às vésperas dos desfiles, o Governo do Distrito Federal anunciou a liberação de verba para 50 agremiações, sendo 32 delas escolas de samba. Somente aquelas filiadas a Federação Brasileira das Escolas de Samba (FBES) receberam a ajuda estatal. As filiadas à União Geral das Escolas de Samba (UGES) ficaram de fora. O objetivo era afastar as escolas da UGES.

 

1948 2 RevistaSemana

Decoração de carnaval na Praça Onze publicada pela "Revista da Semana"

 

As agremiações se concentraram no Campo de Santanna e se apresentaram na Av. Presidente Vargas ao coreto de julgadores montado na Escola Rivadávia Correia. Após a apresentação seguiram em desfile ainda pela Av. Presidente Vargas até a Av. Passos, retornado e se dispersando. As 52 escolas (20 delas sem ajuda financeira do Governo) ocuparam essa região das 18h às 5h45 do dia seguinte, incluindo o tempo de concentração. Dessas, 42 disputaram o título.

No dia 30 de janeiro, a FBES vistou o ensaio da Portela acompanhada de jornalista do "A Manhã". Segundo a nota publicada "Usou da palavra Oswaldo dos Santos, o popular Alvaiade, que diretor de Harmonia, que em rápido improviso enalteceu a atuação da entidade dirigida por Otavio Guedes. 1ª porta-bandeira, Alzira dos Santos; 2ª porta-bandeira, Andorjina da Rocha; mestre-sala Antonio David; diretor de Bateria, Napoleão José do Nascimento. Esteve presente o compositor Manacéia José de Andrade. Foi uma das grandes noitadas de samba", encerra o texto reproduzido aqui na sua forma original.

"A Manhã" também sugeriu ao Governo do Distrito Federal que respeitasse as escolas de samba, já que na quarta-feira anterior ao carnaval, as agremiações ainda não haviam recebido o subsídio para os desfiles. "Má fé para com as escolas de samba", estampou em sua página dedicada ao carnaval o diário na edição de 4 de fevereiro. Contudo, o pagamento do subsídio já havia sido definido e seria efetuado após o desfile. Mas o jornal, porta-voz da FBES, queria garantir para aquela entidade o mérito da liberação da verba.

 

1948 2 4 AManha

"A Manhã" de 4 de fevereiro de 1948

 

Vem Portela

Para o carnaval de 1948, o artista Lino Manuel dos Reis preparou o enredo "Exaltação à Redentora", ou, simplesmente, "Homenagem à Princesa Isabel". Contaria, dessa forma, a vida e os feitos da regente que assinou a Lei Áurea e "libertou" os escravos do Brasil.

Heptacampeã, a escola de Oswaldo Cruz se preparava para manter a hegemonia no carnaval carioca. Entre as agremiações inscritas para o desfile, estava o estreante Império Serrano, do Morro da Serrinha, dissidência da tradicional Prazer da Serrinha, que também participaria do concurso.

Cercada de grande expectativa, a Portela entra na avenida cantando um samba composto por Manacéia, o primeira que ele faria para a Escola. Lino, ajudado por Euzébio e Nilton, explorou os elementos tradicionalmente relacionados ao universo da escravidão.

O ambiente de uma fazenda escravista era apresentado. Unidades de produção monoculturistas, que foram as principais responsáveis pelo desenvolvimento da nação, tendo como força-motriz o sangue e o suor dos negros. A casa-grande e a senzala, com suas relações de complementariedade tão exploradas pelos estudos acadêmicos das décadas de 30 e 40, eram apresentadas em uma visão popular, de fácil entendimento.

À medida que o desfile avançava, a "Exaltação à Redentora" ganhava empatia junto ao público. No fim, mais uma vez ovacionada, a Portela estava credenciada a lutar pelo título, que seria o seu octacampeonato. A tradicional Mangueira, que também deixou a avenida bastante aplaudida, era sua principal adversária e considerada a única capaz de impedir a façanha portelense.

Contudo, quando terminou a apuração, ocorrida na sede do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), no Castelo, o resultado apontou a surpreendente vitória da estreante Império Serrano (128 pontos), ficando a Unidos da Tijuca (127 pontos) em segundo, a Portela em terceiro (126 pontos) e a Mangueira em quarto. Ao ser fundado, o Império havia se filiado a FBES, enquanto a Portela e a Mangueira, vieram da UBES.

Segundo o jornal "A Manhã" a Portela "pecou pela exibição de suas ferramentas, pois esquadros não é ferramenta e sim instrumentos... e permitiu, a exemplo da Mangueira, a presença de numerosas pessoas sem fantasias...". Já o "Diário da Noite" considerou favoritas a Portela e a Mangueira.

 

1948 2 11 DiarioNoite Portela

"Diário da Noite" de 11 de fevereiro de 1948: Portela favorita

 

 

Oswaldo Cruz e Mangueira resistem

Um grande polêmica acabava de ser criada. Algumas pessoas afirmam que o resultado verdadeiro indicava a vitória da Mangueira e o vice-campeonato da Portela, mas teria sido alterado por uma manobra de Irênio Delgado, dirigente da jovem escola da Serrinha e que participava da organização do evento. Depois de divulgado ao vivo por Heron Domingues, apresentador do radiojornal Repórter Esso, que abriu uma edição especial, não havia como voltar atrás. O Império era realmente campeão.

Inconformados com a possível manobra, que nunca foi confirmada ou totalmente desmentida, Natal e os dirigentes da Mangueira romperam com a FBES, acusando a mesma de estar sob o controle de Delgado. A Mangueira havia se filiado a FBES no dia 5 de janeiro, como mostra reportagem publicada pelo jornal "A Manhã" de 6 de janeiro de 1948. A relação durou pouco e a polêmica em torno do carnaval daquele ano não terminou na quarta-feira de cinzas, estendendo-se e deixando seqüelas nos anos seguintes.

 

1948 2 12 AManha

"A Manhã" de 12 de fevereiro de 1948: Império campeão

O resultado do carnaval de 1948 engendrou uma situação até então impensada. Fazendo surgir a rivalidade entre as vizinhas Portela e Império Serrano, acabou criando uma antes inimaginável aproximação entre a Portela e a Mangueira, duas tradicionais adversárias que há 15 anos lutavam pela hegemonia no samba carioca.

Na verdade, as escolas de samba refletiam o clima político da época, com as forças conservadoras, capitaneadas pela política norte-americana macartista e anti-comunista, avançando e criminalizando as organizações de esquerda. O Partido Comunista Brasileiro, que possuía simpatizantes na UBES, foi colocado na ilegalidade e o mandato de seus parlamentares cassados. As escolas filadas à UBES foram atingidas com as mudanças, mas desfilaram de forma grandiosa. Uma vez que a UBES havia perdido seu principal aliado na mídia - o "Tribuna Popular" fechado pelo Governo -, apenas o jornal "O Mundo", segundo Nelson da Nobréga Fernandes, em "Escolas de samba: sujeitos celebrantes e objetos celebrados" (Prefeitura do Rio de Janeiro, 2001), saiu em defesa da UBES. O ano de 1949 prometia...

 

1948 2 RevistaSemana RBranco

Decoração de carnaval na Av. Rio Branco publicada pela "Revista da Semana"

 

 
 
Pesquisa e texto: Fábio Pavão e Marcello Sudoh

(Copyright © - Todos os direitos reservados - É proibida a reprodução total ou parcial)