"DESPERTAR DO GIGANTE"

 

1949

 

As conseqüências do polêmico resultado do ano anterior ofuscaram bastante o brilho do carnaval de 1949. Liderados por Portela e Mangueira, 25 escolas romperam com a Federação Brasileira das Escolas de Samba (FBES), passando a integrar o desfile da União Geral das Escolas de Samba (UGES). A partir daquele ano, a divisão no mundo do samba estava institucionalizada.

Assim, dois desfiles distintos passaram a fazer parte do calendário carnavalesco carioca: o da FBES considerado o oficial, pois contava com o apoio do Governo do Distrito Federal; e o da UGES, não-oficial, isto é, sem subvenção pública. A disputa entre as duas entidades gerou a fundação de várias escolas de "cartório" interessadas apenas no subsídio da prefeitura para, em contrapartida, aumentar o número de filiadas na disputa de quem possuía mais representatividade no samba. Nesse período, o Rio de Janeiro chegou a ter 103 agremiações. Muitas delas não sobreviveram sequer a um carnaval.

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Edição de "A Noite" de 26 de fevereiro de 1949 anuncia o início do carnaval

 

Anti-Portela

O jornal "A Manhã", porta-voz do Governo e da FBES, insatisfeito com a decisão da Portela de deixar a entidade acompanhado das principais escolas de samba da cidade, começou a "alfinetar" a agremiação logo no início do ano. Em nota publicada no dia 6 de janeiro de 1949, o diário anuncia que a Portela perderá sua quadra, colocando culpa na falta de ação da diretoria. No dia 7 de janeiro, o mesmo jornal em artigo titulado "O samba em foco...", cita o samba de Paulo da Portela, "Prestes, Cavaleiro da Esperança", composto em 1947 para  homenagear o líder comunista Luis Carlos Prestes. Segundo o diário, este samba seria uma prova da aproximação da UGES com o Partido Comunista, denunciando o aparelhamento daquela entidade por interesses políticos. Contudo, como era de conhecimento geral, Paulo da Portela já não era mais membro da Portela. "A Manhã" prossegue na nota aconselhando aos dirigentes sambistas a se afastarem da UGES. No dia 8, nova nota afirma que Antenor dos Santos, presidente da Portela, deixará a Escola e será substituído por Natal

Ignorando o que acontecia no desfile da FBES e o que a imprensa oficial publicava, escolas como Portela, Mangueira, Prazer da Serrinha, Unidos da Tijuca, Unidos da Capela, Império da Tijuca e Unidos de Vila Isabel se preparavam para o desfile não-oficial, com a certeza de que a qualidade do espetáculo seria superior ao chamado desfile oficial. O desfile da UBES reuniria 41 escolas, enquanto o da FBES agruparia 34 escolas. O local definido para receber as agremiações foi a Praça Onze. Para as escolas filiadas a UGES, a FBES estava sob o controle de Irênio Delgado e o espetáculo armado para o Império Serrano vencer. A honestidade da entidade oficial era questionada pela maioria das grandes escolas de samba.

 

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"A Manhã" de 6 de janeiro de 1949: alfinetando a Portela

 

Se essa "divisão" no mundo do samba já tornava o ano de 1949 triste para o sambista anônimo, mais triste ainda era para os portelenses. Paulo da Portela, afastado desde 1941 da escola que havia fundado, falecera dias antes do carnaval, sepultando definitivamente as esperanças de que um dia ele e a Portela voltassem a se entender. O enterro foi custeado pela UGES e o número de seu túmulo - 2.908 - foi a centena premiada do jogo do bicho naquele dia.

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A morte de Paulo da Portela na edição de 31 de janeiro de 1949 do jornal "A Noite"

 

Dois desfiles

Mas carnaval é alegria e a Portela lutava por mais um campeonato. Era hora de esquecer os problemas e curtir o grande dia dos sambistas. As escolas participantes do desfile oficial receberam a subvenção pública no dia 24 de fevereiro e o certame foi realizado no dia 27. As escolas filiadas à UGES também desfilaram no dia 27 e se apresentaram em frente ao coreto da Comissão Julgadora instalado na Praça da República. Após as apresentações, um parte das escolas seguiu desfilando da Praça da República em direção aposta à Candelária rumo à Rua Francisco Bicalho. O outro grupo, do qual fazia parte à Portela, chegou à Praça da República vindo pela Marcílio Dias, atrás do Ministério do Exército, que naquela época dobrava indo em direção à Avenida Presidente Vargas pela atual Praça Cristiano Otoni. A dispersão aconteceu pela Marquês de Sapucaí, em direção ao Estácio. O Ministério do Exército era o marco que separava o desfile da UGES e da FBES. As escolas filiadas à esta última se apresentavam no coreto em frente à Escola Rivadávia Correa e se dirigiam à Candelária.

O enredo portelense chamava-se "O Despertar do Gigante", em mais um trabalho organizado por Lino Manuel dos Reis e embalado pelo belo samba composto por Manacéia. A Portela enfocava o descobrimento do Brasil e seus primeiros habitantes. Em uma alegoria, índios representavam a população nativa que habitava o país.

Em outro carro, vinha Estácio de Sá, fundador da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, sobrinho de Mem de Sá, governador-geral do Brasil, e responsável pela expulsão dos franceses que invadiram a Baía de Guanabara.

Dois fatos mereceram destaque: em respeito ao falecimento de Paulo da Portela, a escola Lyra do Amor, de Bento Ribeiro, onde ele era presidente, desfilou em trajes de gala e silenciosa. Uma alegoria e componentes do Cada Ano Sai Melhor foram atropleados por um caminhão desgovernado antes do carnaval, durante um desfile. A agremiação resolveu não participar do carnaval.

Portela vice

A comissão julgadora era formada pelo Major Paredes, Burle Marx, Gastão Formenti, Armando Vianna e Pires da Silva, e apontou a Mangueira como campeã e a Portela como vice, seguida da Depois Eu Digo, Prazer da Serrinha, Unidos da Capela, Unidos da Tijuca e Império da Tjuca.

Enquanto os dirigentes se desentendiam, na esperança do humilde componente, o sonho de que no ano seguinte voltasse a ter um só espetáculo e que as diferenças fossem resolvidas dentro da avenida, ao som da bateria, como devem ser as disputas carnavalescas. No outro desfile, o Império Serrano saiu vitorioso.

Em junho, numa homenagem derradeira, os aeroclubes do Rio de Janeiro doaram aviões para a Campanha Nacional de Aviação. Um deles recebeu o nome de Paulo da Portela. A viúva de Paulo, Maria Elisa dos Santos, participou da cerimônia de batismo da aeronave.

 

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Foto da aeronave batizada com o nome de Paulo da Portela. Abaixo a viúva de Paulo da Portela ao lado de Assis Chateubriand (esq.), empresário e dono dos Diários Associados, e o senador Salgado Filho. "O Cruzeiro" de 18 de junho de 1949.

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Pesquisa e texto: Fábio Pavão e Marcello Sudoh

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