"RIQUEZAS DO BRASIL"

 

1950

 

Com o Partido Comunista Brasileiro (PCB) na ilegalidade, o major Joaquim Paredes assumia a presidência da União Geral das Escolas de Samba do Brasil (UGESB), prometendo pacificar o mundo do samba unificando os desfiles. Contudo, a UGESB não conseguiu ser reconhecida pelo Governo e permaneceu sem a ajuda financeira da Prefeitura do Rio de Janeiro. 

Assim, no final de 1949, foi criada a União Cívica das Escolas de Samba (UCES), uma manobra da prefeitura carioca para esvaziar a UGESB, considerada "comunista". Para a presidência da entidade foi nomeado o jornalista Antonio Vieira de Melo, ligado ao Governo Eurico Gaspar Dutra. A UCES conseguiu verba do Governo para as escolas filiadas levando a maioria das agremiações da UGESB a abandonarem esta última. Portela, Mangueira, Unidos da Tijuca e União de Jacarepaguá, dentre outras, aderiram a UCES e receberam o subsídio do Governo para o desfile. Na UGESB permaneceram a Unidos de Vila Isabel, Em Cima da Hora, Caprichosos de Pilares, somadas a outras poucas escolas.

 

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Artigo escrito pelo Major Paredes para a "Tribuna da Imprensa" em 9 de janeiro de 1950

 

No dia 9 de janeiro, Major Paredes escreve artigo no jornal "Tribuna da Imprensa" (acima), defendendo os sambistas e afastando as acusações de que as escolas filiadas à UGESB estavam tomadas por comunistas. Os jornais que davam apoio ao Governo do Rio de Janeiro e à Federação Brasileira das Escolas de Sambas (FBES), continuaram a prática do ano anterior de publicar notas de desapreço às escolas que não eram suas filiadas. No dia 4 de fevereiro, o jornal "A Noite" (abaixo) divulga carta de Zé Ketti endereçada à Alvaiade, onde o compositor portelense responde a supostas críticas a ele dirigidas, como se houvesse desentendimentos entre os principais compositores da agremiação. No dia 9, "A Manhã" retoma o assunto em nota onde Zé Ketti comenta que não se considerava melhor que nenhum compositor da Portela. O objetivo dessas publicações era provocar clima de desunião na agremiação de Oswaldo Cruz. Contudo, o "tiro saiu pela culatra" já que, como veremos, a Portela desfilou unida no carnaval. No dia 17, a FBES proíbe que suas filiadas desfilem com cartazes políticos, porém aceita que as mesmas homenageiem os generais Eurico Gaspar Dutra e Mendes de Morais. A resolução foi publicada no jornal "Gazeta de Notícias". 

 

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A nota do jornal "A Noite", de 4 de fevereiro de 1950 envolvendo Zé Ketti

 

Os desfiles

Na Praça Onze, capital do carnaval popular, a prefeitura do Rio caprichou na decoração e ergueu um busto à Paulo da Portela. A Av. Rio Branco recebeu rodas giratórias decoradas com motivos que lembravam pierrôs e colombinas. A Av. Marechal Floriano, a Praça Tiradentes, o Largo da Carioca e o obelisco da Rio Branco também ganharam motivos carnavalescos.

Alheio aos problemas políticos que atrapalhavam o carnaval, Lino Manuel dos Reis preparava o enredo "Riquezas do Brasil" para que a Portela superasse a campeã Mangueira. A disputa entre Portela e Mangueira era, antes de tudo, uma disputa amigável, pois os "adversários" estavam no outro desfile.

Segundo o regulamento publicado pela imprensa carioca, o desfile oficial da FBES ocorreria a partir das 20h do dia 19 de fevereiro, domingo, na Av. Presidente Vargas, com o coreto da Comissão Julgadora posicionado em frente a Escola Rivadávia Corrêa. Os quesitos em julgamento foram Bateria, Bandeira, Cenografia (alegorias), Enredo, Evolução (mestre-sala e porta-bandeira), Fantasia, Harmonia e Samba (letra e melodia). Apesar de terem sido anunciadas a participação de 45 escolas, na verdade, 37 agremiações tiveram 6 minutos para se apresentarem em cima do palanque. A UGESB organizou seu desfile na Praça Onze reunindo 24 agremiações. A UCES, onde desfilaram a Portela e a Mangueira, também realizou seu carnaval na Praça Onze, no mesmo dia 19, a partir da 22h. O local foi decorado para receber as escolas de samba mais tradicionais do carnaval carioca.

 

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Edição de 19 de fevereiro de 1950 de "O Jornal" anuncia três desfiles distintos

E a Portela começou sua apresentação exaltando os elementos que fizeram a riqueza do País ao longo de sua história. Alegorias representando as pedras preciosas, tão cobiçadas pelas nações estrangeiras; o café, nosso maior produto de exportação no final do século XIX e início do século XX; e o minério, concretizavam no desfile o que Lino havia idealizado.

O orgulho que o brasileiro tinha de sua terra estava presente na avenida, mas não era tudo. A Portela mostrou também que a maior riqueza do País não estava nos produtos que brotam da terra, e sim nas crianças, esperança de um futuro promissor. Foi com essa mensagem bonita que a Portela fechou seu carnaval.

Mais uma vez, Manacéia foi o autor do samba cantado na avenida. Era a terceira vez consecutiva que a Portela desfilava com um samba do compositor. Em pouco tempo ele se consolidava como um dos maiores compositores da história da Escola.

Os jornais destacaram a presença de frigideiras nas baterias. Chegou-se a prever que os tamborins seriam substituídos pelo novo e estridente instrumento.

A comissão julgadora organizada pela UCES, composta por Pires da Silva, Cristóvão Freire, Craveiro Júnior, Bernardo Cruz, Luiz Augusto e Claudionor Costa, conferiu à Mangueira o título de bicampeã, seguida pela Portela, vice, e Unidos da Tijuca em terceiro lugar.

 

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O presidente da UCES, jornalista Antonio Vieira de Melo, ligado ao governo do general Eurico Gaspar Dutra

 

Escola "sem" partido...

Era o segundo ano do "samba dividido". Um grande desfile que juntasse Portela, Mangueira e Império Serrano, um "tira-teima" dentro da avenida, era tudo o que os sambistas sonhavam. A rivalidade crescia, um se dizia melhor que o outro, mas ninguém podia comprovar quem realmente estava com a razão. Entretanto, se esse era o sonho dos sambistas, a presença de Irênio Delgado como vice-presidente da FBES tornava esse realidade ainda muito distante. O grande confronto ainda teria que esperar mais um tempo.

No desfile da FBES, o Império Serrano, como já era esperado, foi novamente campeão. No desfile da UGESB, o Prazer da Serrinha levou o título.

Vela lembrar que, em janeiro daquele ano, durante os preparativos para os desfiles carnavalescos, a escola de samba "Depois eu Digo", localizada na Rua Potengi, atrás do Tijuca Tênis Clube, foi invadida pela Polícia Municipal e depredada. Segundo o "Diário de Notícias", Cr$ 1,3 mil sumiram dos cofres da agremiação. Dois dirigentes da "Depois eu Digo" eram também diretores da UGESB. A invasão pode ter sido uma ação em represália a participação da escola num comício do Partido Socialista, ocorrido dias antes, atividade que também sofreu repressão das autoridades da capital federal. O estatuto da FBES proibia que suas filiadas participassem de manifestações políticas, com exceção daquelas que envolviam autoridades como o general Ângelo Mendes de Morais, prefeito do Distrito Federal, entre 1947 e 1951, e o coronel Frederico Trotta, ex-governador dos Territórios de Guaporé e Rondônia, e membro do Partido Social Trabalhista. Pelo que mostram os jornais da época, a FBES trabalhava para que as escolas ficassem longe apenas dos partidos de esquerda. Vamos ver o desenrolar dessa história nos próximos anos.

 

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Edição de carnaval do "Diário Carioca" de 19 de fevereiro de 1950