HISTÓRIA

 

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Mestre Nilo (2006, O Globo)

Falar da bateria da Portela é lembrar de grandes mestres que escreveram a história do samba. Sua batida firme é reconhecida no Brasil e no exterior, o que a fez ganhar fama no mundo do samba como a "Tabajara do Samba".


Nas festas na casa do Sr. Napoleão, Sr. Vieira, D. Neném e Dona Esther, participantes dos cultos afro-brasileiros, em suas diversas linhas e nações, traziam seus instrumentos: violões, atabaques, cavaquinhos, tamborins, tamboretes, pandeiros e cuícas, que formavam o ritmo para o lundu, caxambu, jongo e samba. Desse período distante, a Portela formou o seu "regional", grupo que se apresentava com os instrumentos em festas e circos.

 

Nas primeiras apresentações do então Conjunto Carnavalesco Oswaldo Cruz, o grupo utilizava os músicos desse "regional", formando o embrião da bateria da Portela. Grande parte dos primeiros instrumentos portelenses foi trazida do quartel pelo sargento Mendonça. Contudo, esses instrumentos precisavam ser devolvidos, e a Portela teve que produzir suas próprias peças de bateria no barracão.


Quem começou a desenhar a trajetória gloriosa da bateria da Portela foi Adalberto dos Santos, o mestre Betinho, que mudaria definitivamente o rumo das baterias e do carnaval carioca. Foi Betinho quem introduziu nas escolas de samba instrumentos como a caixa-surda e o reco-reco. Certa vez, observando um guarda de trânsito no exercício de suas atividades, Betinho teve a idéia de usar um apito para comandar seus ritmistas, iniciando uma prática que se tornou comum.

 

Características em mudança

 

Depois de Betinho, Ximbute, antigo auxiliar, assumiu o comando de nossa bateria. Corneteiro do Exército, Ximbute utilizou na bateria instrumentos comuns nas bandas marciais. Oscar Bigode também foi outro grande mestre da Portela e do carnaval carioca, sempre procurando inovar e introduzir novos instrumentos.

Além desses, Nozinho, Vadico, Quincas, Cinco e André, que fez sucesso inventando a "paradinha" na Mocidade Independente de Padre Miguel, foram grandes diretores e mestres de bateria da Portela.

 

Mestre Bombeiro é o membro mais antigo ainda vivo. Está há mais de 40 anos co-dirigindo o naipe de surdos. Depois dele o mais antigo é Mestre Arsênio, diretor do naipe de cuícas.

 

A Portela também foi a primeira escola a permitir a participação de mulheres na bateria. Dagmar, que tocava surdo, entraria dessa forma para a história do carnaval.

 

A "Tabajara do Samba" conservava como característica básica o surdo de terceira com a batida característica 3 por 4 criada na década de 40 por Sula. O couro mais frouxo deixava a afinação da terceira da Portela mais grave que a das outras escolas. Mas isso mudou nos últimos anos.

 

Outra característica é a caixa rufada 1 vez em cada 4 compassos, iniciando a sequencia da batida com este rufo, seguido de resposta da mão "cega", dois toques com a mão "boa", retorno da mão "cega", um toque com a "boa", retorno da mão "cega", dois toques na mão "boa", nessa mesma sequencia até chegar a hora de retornar o rufo no início do novo grupo de 4 compassos. Chamamos aqui de mão "cega" e "boa", com o objetivo de respeitar as diferenças entre destros (mão boa = direita) e canhotos (mão boa = esquerda). Esse toque, além da afinação é o que diferencia a Portela de outras batidas de caixa rufadas como a da Mangueira e do Império Serrano. A Portela não toca caixa batida em cima. Houve um período em que não foi possível realizar a padronização das caixas com o toque em baixo. Mestre Nilo Sérgio deu fim a esse período e os caixeiros hoje só tocam em baixo. 

 

A bateria ostenta dois Estandartes de Ouro, conquistados nos anos de 1972 e 1986. Foi uma bateria "pesada", onde notava-se a presença marcante dos surdos. Hoje o número de marcações caiu de 60 para cerca de 40.

 

Diferente de outras escolas, a Portela tinha a tradição de colocar todos os surdos de primeira de um lado (esquerdo) e todos os de segunda do outro. Isso também mudou devido à aceleração do samba.

 

Outra mudança visível foi a entrada no segundo recuo. A Portela foi a primeira escola a passar pelo segundo recuo, dar meia-volta e entrar com a parte de trás. Hoje, para abrir espaço na avenida rapidamente, a bateria entra de frente e faz a troca de posição dos instrumentos dentro do recuo.

 

De 1970 ao Século XXI

 

Em 1971, Mestre Cinco foi trazido da Unidos de Padre Miguel para a Portela, tendo assumido o desfile de 1972. Junto com ele veio um grupo de ritmistas que impuseram uma batida diferente à escola. Não houve descaracterização total, mas a bateria passou a bater diferente.

 

Em 1978, Mestre Marçal - que era diretor - chega ao cargo de mestre e resgata parte da batida da escola. Somente em 1980 divide o cargo com Mestre Quincas, mas fica na escola até 1986. Em 1987, começa a geração Timbó.

 

Mestre Timbó chegou à Portela através dos ensaios no Mourisco. Com experiência de bateria nos blocos da região de Laranjeiras - Canários das Laranjeiras - e Botafogo - Foliões de Botafogo -, Timbó fica na Tabajara até 1994, quando é substituído por Mestre Mug.

 

Até o carnaval de 2002, Mestre Mug foi o maestro da nossa "Tabajara". Esse quadro só foi modificado em 1996 e 1997, com rápida passagem do Mestre Paulinho de Pilares.

 

Em 2003, assumiu a bateria Carlinhos Catanha, filho de Mestre Catanha. Este último durante anos dirigiu o naipe de tamborins. Seu filho, Carlinhos Catanha tocava na bateria a quase 20 anos e era prata da casa. Ele fez um ótimo desfile e permaneceu na bateria até dezembro de 2003, quando foi afastado da direção. Mestre Mug foi chamado de volta e levou a bateria até o fim do carnaval.

 

Em agosto de 2004, já na administração de Nilo Mendes Figueiredo, Amando Marçal, o Marçalzinho, filho de Mestre Marçal, foi convidado para dirigir a bateria. Marçalzinho freqüentava a escola. Estava afastado da bateria desde 1986, mas aceitou o convite.

 

A bateria se saiu muito bem em 2005, num desfile cheio de problemas. No final do ano, ocupado com o trabalho de percussionista, Marçalzinho pediu demissão e deixou um de seus diretores no cargo. Houve boatos de que ele havia se desentendido com a diretoria. No entanto, o próprio garante que os motivos foram profissionais.

 

Em 2006, Nilo Sérgio, que já estava na Portela desde os tempos de Mug, assumiu como mestre de bateria. Comandando a ala desde então, mestre Nilo Sérgio é o principal responsável pelo ótimo momento vivido pela bateria da escola. Deu início a uma importante renovação e padronização dos naipes na bateria portelense. Com seu trabalho à frente da bateria, venceu o prêmio Estandarte de Ouro do jornal O Globo por 4 vezes: como revelação do carnaval 2006 e melhor bateria em 2010, 2012 e 2013.

 

Pesquisa e criação de texto: Fábio Pavão e Marcello Sudoh

Bibliografia:

ARAUJO, Hiram. Carnaval - Seis milênios de história. Rio de Janeiro, Gryphus, 2000.

CANDEIA FILHO, Antônio & ARAÚJO, Isnard. Escola de samba - árvore que esqueceu a raiz. Rio de Janeiro, Ed. Lidador, 1978.