ANTIGA SEDE

 

Portelinha

Portelinha em 2015 (Foto: Marcello Sudoh)

 

Entrar na Portelinha é também desvendar os segredos da alma portelense. Seu portão azul se abre para a Estrada do Portela, diante de uma típica paisagem do subúrbio contemporâneo. Carros, ônibus e vans travam suas barulhentas batalhas diárias.

O "vai-e-vem" agitado convive com a ainda resistente tradição do bate-papo entre vizinhos. Mães apressadas deixam e pegam seus filhos no colégio. Entretanto, é o olhar histórico que nos revela a particularidade do local. Ali nasceu a Portela. Nossa imaginação reconstrói uma arqueologia fantástica, fazendo ressurgir em nossa mente a velha jaqueira, a chácara do Sr. Napoleão, o bar do Nozinho. Paulo, que antes caminhava elegantemente, agora está presente em forma de busto, impondo-se no centro da praça que leva seu nome.

Segundo Candeia, as primeiras sedes da Portela foram as casas de Paulo da Portela, no Barra-Preta, e o quarto onde morava Antônio Rufino. Nos primórdios das escolas de samba, uma sede significava, basicamente, um local para guardar os instrumentos.

A terceira sede da escola foi o famoso "Bar do Nozinho", quando as reuniões e a centralização administrativa já se tornavam obrigatórias para a organização das escolas de samba, cada vez mais complexas e especializadas.

O crescente progresso das escolas de samba trouxe também a necessidade de um local fixo que fosse utilizado para os ensaios. Construída no fim da década de 50, a Portelinha foi a primeira sede própria da Portela. Muitos contribuíram para a realização do projeto. Do livro de ouro constam nomes como o do Ministro Edgard Romero. Natal contribuiu com grande parte dos recursos. Lino Manoel dos Reis doou para a escola o dinheiro de uma indenização pela perda dos dedos de uma mão.

A Portelinha foi uma grande conquista, mas a popularidade das escolas de samba crescia de tal forma que em pouco tempo a quadra tinha se tornado pequena, obrigando a Portela a ensaiar primeiro no Clube Imperial, em Madureira, e depois construir o Portelão, na época chamado "Academia do Samba Natalino José do Nascimento".

Abandonada, a Portelinha representava apenas uma etapa do crescimento da escola. Constituía-se, também, numa presença concreta da Portela em seu berço, onde as demais lembranças pereciam com os anos. A pequena quadra ficou esquecida até a escola ceder a administração do espaço para a Velha Guarda, que, sob a liderança do Sr. Armando Santos, transformou-a num centro de sociabilidade para nossos veteranos sambistas.

As placas na parede recordam as glórias passadas da Portela. O azul e o branco se alternam harmoniosamente, destacando-se as frases que exaltam a Portela e a importância da Velha Guarda.

A "mãe do Portelão", como diz uma frase do compositor Gil Coelho exposta na parede, é um local acolhedor e receptivo. O Palco Carlos Teixeira Martins fica ao lado da entrada. No fundo, o bar da velha guarda fica próximo à escada que permite acesso à "Rua Antônio Rufino", no segundo andar da construção, onde fica também a cozinha.

Sobre o já citado palco, os "velhas guardas" preservam valiosas lembranças do passado glorioso da Portela. Instrumentos antigos de bateria, alguns bastante diferentes dos atuais, como os tamborins quadrados, estão expostos ao lado dos chapéus de saudosos ritmistas. Quadros históricos, flâmulas e os troféus oferecidos à velha guarda ocupam a quase lotada estante de madeira.  É a presença dos pioneiros e dos mais antigos nas histórias, nas atas e nas relíquias.

A palavra "saudade" só existe na língua portuguesa. Entrar na Portelinha, para quem viveu a Portela das décadas de 50 e 60, é sentir o significado deste termo. Para quem não conheceu a Portela desta época, o sentimento é de algo que nosso idioma simplesmente ignora. Saudade de algo que jamais foi vivido.

Pesquisa e criação de texto: Fábio Pavão, Rogério Rodrigues e Lucia Pinto